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MUTILAÇÃO GENITAL MASCULINA e CONSERVADORISMO


Jan Baegert (1465-1535) wikimedia.com


Apesar da luta, a sociedade continua machista e misógina. Por que isso acontece? Por que uma grande parcela da população brasileira e mundial prefere se colocar na trincheira conservadora e ultra-conservadora? Por que a mudança ameaça os conservadores? o que as religiões abraâmicas tem a ver com o conservadorismo? Essas perguntas servirão de guia para nossa conversa de hoje. Veremos que a circuncisão é um pacto de sangue e tem a ver com tudo isso.


A circuncisão, também chamada de mutilação genital masculina quando não há indicação médica para tal procedimento, é de uso obrigatório entre os judeus, embora sua origem seja muito mais antiga.


Tumba do Vizir Ankhmahor. 6ª Dinastia, 2.350 aC.


Ela já era praticada no Egito e na Babilônia muito antes de ser adotada pelos judeus. O documento mais antigo que se tem do ritual da circuncisão está gravado na tumba do Vizir Ankhmahor, segunda pessoa mais importante depois do faraó Teti, da VI Dinastia em torno de 2.400 aC. Essa tumba está situada no lado norte da pirâmide de Saqqara.


No Egito antigo a circuncisão era feita em pré-adolescentes para utilizar um termo atual e não em bebês como fazem os judeus. Depois de viveram longo tempo de exílio no Egito e na Babilônia, locais onde a circuncisão era uma cerimônia tradicional e um rito de passagem para o rol dos homens adultos, os hebreus ressignificaram essa prática dando-lhe a conotação de "Aliança" com o Deus Único a fim de combater o politeísmo.



Os rituais de passagem se perdem na noite dos tempos. Tais rituais foram e ainda são usados pelos povos aborígenes de todos os continentes, inclusive pelas tribos brasileiras. Para esses jovens, o ritual de Waumat (luva cheia de formigas tucandeiras) é praticado pelos Sateré-Mawé há séculos, marcando a transição da infância para a idade adulta. Hoje, este ritual ganhou mais um significado. Ele visa preparar os jovens para serem líderes na luta de resistência à devastação da floresta amazônica, aos madeireiros ilegais e aos grileiros. Os índios Sateré lutam para defender a Terra Indígena Andirá-Marau, que abrange 780 mil hectares, entre os estados do Amazonas e do Pará. “As picadas das formigas funcionam como vacina, para evitar doenças e nos tornar melhores caçadores e guerreiros”, disse o guerreiro Sateré Érik Pereira Batista, enquanto buscava as tucandeiras para o próximo ritual. Link na bibliografia.



Todo ritual de pasagem deixa marcas, físicas ou psíquicas. A tatuagem é outro tipo de ritual de passagem. A tatuagem foi usada pelos povos nativos de todos os continentes. Em cada lugar, os indivíduos utilizavam os desenhos na pele para se referir a algo de sua história ou cultura.



As tatuagens mais antigas que se conhecem foram encontradas nocorpo de Ötzi, o Homem de Gelo de 5,3 mil anos de idade, encontrado em 1991 nos Alpes, entre a Áustria e a Itália. Ele está cobertocom mais de50 tatuagens, da cabeça aos pés.


A Yakuza – máfia japonesa – é referência em tatuagem no Japão. Os membros dessa organização se cobrem de tatuagens do pescoço aos tornozelos com desenhos cheios de significados, além de ser prova de pertencimento.



Sejam rituais de passagem ou provas de pertencimento, tais rituais deixam marcas permanentes no corpo. Estes antigos costumes foram tomados e ressignificados pelos judeus na formulação de um novo tipo de religião. O judaísmo.



No 8º dia de nascido, o bebê é circuncidado. Durante o ato são rezadas orações específicas e, geralmente, o nome da criança é revelado durante o procedimento. Ela é colocada no colo do padrinho, então o mohel (aquele que vai circuncidar) expõe a genitália do bebê e o padrinho o segura pelas pernas. O mohel então segura o prepúcio entre o polegar e o dedo indicador puxando a pele para além da glande, então coloca o grampo, também chamado de escudo (é essa pecinha que aparece no canto inferior da imagem). Posicionado o grampo, o mohel pega sua faca e corta o prepúcio com um só golpe.



Depois disso, o mohel coloca um pouco de vinho na boca, aplica os lábios na parte envolvida na operação, suga o sangue e cospe a mistura de vinho e sangue em um recipiente próprio. Este procedimento é repetido várias vezes para estancar o sangramento. Depois é aplicado um curativo e a circuncisão está concluída.



Estes são os instrumentos necessários para o ritual. Aquele que aparece como número 2 tem sua origem lá na antiga Suméria, que depois se chamou Babilônia, e que inspiraram os judeus.



Chamado de “grampo”, ou "escudo", esse instrumento protege a glande no momento de cortar o prepúcio. No entanto, o mais interessante é que ele era um dos símbolos da Grande Mãe Suméria, chamada Ninhursag.



No mitologia suméria ela foi responsável por ter participado do processo de modificação genética dos hominídios para homo sapien- sapiens. O instrumento usado antes do corte para "pinçar" o cordão umbelical do recém-nascido passou a ser o distintivo de Ninhursag. Este era seu símbolo, como podemos ver nas imagens abaixo:






Ninhursag, Enki e Enlil são filhos de Anu, deuses na mitologia suméria. As tabuletas de argila encontradas na Biblioteca de Assurbanipal contam com detalhes suas peripécias e inúmeras passagens tais textos são muito semelhantes aos que foram reproduzidos no Antigo Testamento.


De origem suméria, o símbolo da deusa Ninhursag foi adotado pela civilização egípcia e passou a ornamentar os cabelos de Hator, a Deusa-Mãe do Egito. E sua caminhada civilizatória continuou, chegando à Grécia, onde foi ressignificado como alfa-ômega, o começo e o fim de tudo.



A Deusa-Mãe foi referência do sagrado durante milênios, contudo, em um dado momento da história, o patriarcado começou sua campanha para destroná-la e tomar o seu lugar. Foi o início do monoteísmo. E, como acontece com todas as religiões, aquela que chega utiliza o sincretismo com a anterior. Com o judaísmo não foi diferente. Sendo monoteísta, a nova religião não pode abdicar das tradições religiosas anteriores, tomando para si o ato de circuncidar, inclusive mantendo o mesmo instrumental.



É muito impressionante como o masculino se apossou de um símbolo exclusivamente feminino, usado na hora do parto, para ser usado em um ritual onde a mulher não pode estar presente.


Mais do que o prepúcio, o que está sendo cortado é o cordão umbilical com a Grande Mãe, com a Deusa Mãe, a fim de estabelecer um pacto de sangue entre o Deus Único e os homens. Na nova religião patriarcal a circuncisão passou a ser a marca de pertencimento feita no corpo de cada judeu a fim de lembrá-lo da "aliança" feita entre o Deus Único e Abraão.



O capítulo 17 do Gênesis conta que Deus apareceu a Abrão e disse: Esta é a minha aliança, que todo o homem entre vós seja circuncidado. A circuncisão será o sinal da aliança entre mim e vós.


Abrão tinha 99 anos quando o Senhor apareceu a ele e exigiu que fizesse a circuncisão dizendo: Eu sou o Deus Todo-Poderoso. Eu estabelecerei uma aliança entre mim e ti, e te multiplicarei. Tua descendência será maior que as estrelas do céu. Teu nome não mais será Abrão, e sim Abraão, o pai de muitas nações.


{Abrão = AB-RAM – que significa, seguidor de Rama, ou filho de Rama, chamado de RÁ no Egito. Para saber mais, veja o post https://www.eagrandemaeviroudeuspai.com/post/7-abra%C3%A3o-o-primeiro-patriarca}




Quando Deus exigiu a circuncisão de Abrão, seu filho Isaac ainda não havia nascido. Abrão só tinha Ismael, seu primogênito, filho dele com Hagar, a escrava egípcia. Quando Abrão fez a circuncisão, ele imprimiu em seu corpo o sinal do pacto, da sua aliança com Deus. Nesse dia seu nome foi trocado para Abraão e Deus lhe prometeu a Terra de Canaã.


Estou chamando atenção para o ato de prometer a Terra de Canaã aos judeus, pois veremos que essa questão não é pequena, uma vez que Canaã era um território que já vinha sendo ocupado há pelos menos 6.000 anos aC, sendo que Abraão teria nascido por volta de 2.000 aC. A pergunta que não quer calar é: Como é que uma terra habitada há milênios pode ser dada a outro povo? E o povo que já morava lá, como ficou?



Bem, depois da circuncisão de Abraão, Sara concebeu Isaac, que foi circuncidado no 8º dia, como havia sido ordenado por Deus. Esse costume foi instituído no judaísmo, cujo ritual se chama Brit Milá. Já no islamismo, como Ismael tinha 13 anos quando foi circuncidado, os muçulmanos mantiveram a tradição de circuncidar os garotos nessa mesma idade.


Em hebraico, a palavra "brit" significa “pacto, aliança”, e "milá" está relacionada ao ato de circuncidar. Assim Brit Milá é o pacto da circuncisão .O homem, cujo prepúcio não estiver circuncidado, será extirpado do povo eleito, pois quebrou a minha aliança, disse Deus. A cobrança desse pacto será cobrada por Deus em várias situações, sempre relacionadas com a entrada em Canaã.



Opacto de sangue está diretamente relacionado com a posse da Terra de Canaã. Deus deu Canaã ao povo escolhido, mas para ter Canaã era preciso adorar somente a ele, o Deus único. Com a aliança nasce o monoteísmo judaico. Por causa da aliança, o menino é propriedade de Deus, os judeus são o povo escolhido de Deus, o patriarca é o representante de Deus entre os homens, a mulher é propriedade do homem, tanto quanto a terra e os rebanhos. Com esse pacto nasceu uma nova religião, o judaísmo, símbolo do Patriarcado, do monoteísmo e da propriedade privada.



E os milênios de devoção à Grande Mãe? O que foi feito das Deusas com o aparecimento do Deus Único?


A Grande Mãe, as Deusas e as mulheres foram violentamente perseguidas, até a morte. E não é apenas força de expressão. Essa perseguição está relatada nos livros bíblicos Reis I e II, quando o profeta Elias desafiou os sacerdotes de Baal, no Monte Carmelo. Olha esse nome – Monte Carmelo – lugar onde o profeta do Deus Único desafiou os profetas pagãos. Hoje, assim como Elias, Frei Tiago desafia o Papa Francisco, chamando-o de Herege.



Essa narrativa está relacionada com Jezebel, uma princesa fenícia casada com Akab, rei de Israel. Segundo a narrativa, o rei se deixava dominar por ela. Alguns sacerdotes hebreus entendiam que, por ser condescendente com o culto aos deuses e deusas de Jezebel, o reino de Israel estava sendo castigado por Deus. Após mais de três anos sem chover, em meio a uma seca devastadora, origem de uma fome jamais vista em Israel, o profeta Elias decide desafiar os sacerdotes de Baal para um grande duelo. Fazer chover! Elias achava que o povo escolhido havia esquecido a aliança que havia feito com Deus, que a causa da seca e da fome era a idolatria, que se propagava no reino de Israel. Jezebel era devota da Deusa Mãe, representada pela vaca, cujos chifres simbolizavam a lua, astro associado ao feminino. O Deus Único passou a ser representado pelo sol. Qual dos dois era mais forte? Tem início o duelo. Elias desafia os sacerdotes da Deusa a produzirem chuva.



De um lado, quatrocentos e cinquenta profetas de Baal e mais quatrocentos da deusa Ahsera. Do outro lado, Elias invoca Yaveh e proclama que o tempo do arrependimento é chegado. O povo escolhido tem que voltar a honrar a aliança feita com o Deus Único. Elias prepara um sacrifício de sangue com um carneiro, que foi imolado e colocado no altar do sacrifício.



O fogo desceu do céu através de um raio, consumindo o animal e causando grande confusão. Elias aproveitou-se da situação e ordenou a morte dos sacerdotes de Baal e Asherá. No meio da matança Elias orou com furor para que a chuva caísse sobre a terra - o que efetivamente aconteceu. O monoteísmo e o patriarcado saíram vencedores!



Vencida, a rainha Jezebel pagou com a vida, assim como os seus sacerdotes. Ela foi assassinada e seu corpo atirado aos cães. Junto com ela, a Deusa Mãe e todas e todos que cultuavam da Deusa Mãe também foram alvo da sanha persecutória monoteísta. Mas, qual foi o pecado da rainha Jezebel? Sua devoção à Deusa Mãe e aos deuses, ditos pagãos. Esse era o castigo para quem não aceitasse a aliança com o Deus Único. E ela não foi a única. A Bíblia relata outos eventos com o mesmo conteúdo. Esse recado foi sendo transmitido de geração em geração através do pacto de sangue do brit milá.


A exigência do cumprimento do pacto também esteve preente quando Deus derramou sua ira contra Moisés, a ponto de querer matá-lo. A Bíblia registra que Deus quis matar Moisés enquanto ele estava seguindo de Midiã para o Egito (Êxodo 4:24-26).



Por ordem divina, Moisés estava retornando ao Egito, a fim de resgatar os judeus que estavam escravizados naquelas terras. No caminho, a ira de Deus se voltou contra Moisés, ameaçando-o de morte. O Senhor estava irado com Moisés, e sua mão estava a ponto de cair sobre ele, para matá-lo, pois ele não havia circuncidado o seu filho, Gerson. Então Zípora, ou Séfora, esposa de Moisés, tomou uma pedra afiada e circuncidou o filho. Depois, lançou a pedra amolada e o anel prepucial do menino aos pés de Moisés, dizendo: Tu és um esposo sanguinário! A circuncisão do filho poupou a vida de Moisés.

Essa passagem bíblica ensina a todos os judeus que, aqueles que não circuncidarem seus descendentes podem sofrer o mesmo que Moisés, enfrentar a ira do Senhor. É relevante também perceber que Moisés estava cumprindo a determinação de Deus para voltar ao Egito a fim de resgatar o "povo eleito" e então começar o êxodo em direção à Canaã, à Terra prometida. Foi nesse contexto que a circuncisão do filho foi cobrada por Deus, ou seja, o cumprimento do "pacto" de sangue entre Deus e seus seguidores foi exigido..



A marca deixada pela circuncisão tem o mesmo simbolismo da marca de “sangue sobre as casas” dos israelitas quando o Deus Único resolveu matar todos os primogênitos do Egito a fim de forçar o faraó a libertar o povo eleito. Todo o contexto envolvendo o episódio de Gerson aponta para a necessidade de Deus ter que repactuar a promessa feita a Abraão e da aliança estabelecida entre Deus e o “povo eleito” para entrar na Terra de Canaã. Só os portadores da “marca”, só aqueles que haviam marcado seu corpo com o sangue da circuncisão poderiam entrar.



Disse Deus a Moisés: “Mandarei mais uma grande calamidade sobre o Faraó e a sua terra, depois da qual ele deixará o povo partir. Porque eu passarei esta noite pelo Egito e matarei todos os primogênitos, dos homens e dos animais, pois eu sou o Senhor. Porém, o sinal de sangue colocado nos batentes das portas do “meu povo” mostrará que vocês me obedeceram. Então, quando eu vir o sangue, passarei adiante e não matarei o primogênito dessa família."


Moisés então disse aos anciãos de Israel: Matem um cordeiro, escorram o sangue e marquem com ele a entrada da casa. Ninguém deverá sair nessa noite. Porque o Senhor passará para matar os egípcios, mas, vendo o sinal de sangue, passará adiante. Naquela noite o Senhor matou todos os primogênitos da terra do Egito, até mesmo o filho do Faraó, inclusive os animais.



A mesma ligação entre a Canaã e circuncisão se repete com Josué. Quando Moisés morreu coube a Josué cruzar o rio Jordão e entrar em Canaã. Naquele tempo, disse o Senhor a Josué: Faze facas de pedra e circuncide os filhos de Israel. Todo o povo que saíra para o Êxodo já estava circuncidado, mas os que nasceram durante os 40 anos no deserto, não. Ocorre o Senhor já tinha dito a Abraão que aqueles que não aderissem ao pacto de sangue seriam extirpados do povo eleito e não poderiam entrar em Canaã. Então, Josué os circuncidou.



Não precisa ser gênio para perceber que, toda vez que aparece a questão da Terra Prometida, o pacto da circuncisão aparece. Para entender a relação entre circuncisão e Canaã temos que retomar a história da rainha Jezebel.



No tempo da rainha Jezebel, Israel estava dividido entre Reino do Norte (Dez tribos - Rei Jeroboão) e Reino do Sul (Duas tribos -Benjamim e Judá – Rei Roboão). A divisão aconteceu depois da morte do Rei Salomão. O Reino do Norte fazia fronteira com a Fenícia. Então, Acab, do Reino do Norte se casou com a Princesa Fenícia chamada Jezebel, tornando-a rainha consorte do Reino de Israel, ou Reino do Norte. A bíblia diz que ela era filha de Etbaal, rei dos sidônios. Hoje se sabe que Etbaal era mais do que rei da cidade de Sidon, era rei dos Fenícios, o grande império mercante naquela época. O Reino do Norte não era páreo para a Fenícia, mas era estratégico, pois ficava entre a Fenícia e o Egito.



De acordo com os interesses políticos dos fenícios, o Rei Hiram forneceu ao Rei Salomão arquitetos, trabalhadores, madeira de cedro e ouro para construir o Primeiro Templo em Jerusalém. A Fenícia era uma grande potência, enquanto Israel mal havia nascido.


Sarcófago de Airã, no Museu Nacional de Beirute. Wikipedia


Devido ao intenso comércio marítimo, os fenícios inventaram o alfabeto que usamos até hoje. A representação mais antiga do alfabeto fenício é a inscrição do sarcófago do rei Airã, de Biblos. O comércio dos rolos de papiros vindos do Egito para a cidade portuária de Biblos foi tão intenso que os rolos de papiro acabaram tomando o nome da cidade portuária e passaram se ser conhecidos como Biblos, sinônimo de rolos de paprito ou livros, razão pela qual Biblos é o termo de origem das palavras “Bíblia” e “biblioteca”.



Estudos arqueológicos indicam que a Fenícia pode ter sido ocupada pela primeira vez entre 8000 e 7000 aC. Abraão só apareceu 2000 aC. Israel Finkelstein, Professor do Departamento de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv afirma que não há comprovação sobre a conquista de Canaã. Ela pode não ter existido, pelo simples fato de que não existiu um povo judeu que chegou e conquistou Canaã. Eles sempre estiveram lá. Finkelstein mostra que a arqueologia pode ajudar a entender as narrativas Bíblicas. Mas, para isso é preciso superar a atitude de ter a picareta em uma mão e a Bíblia na outra, moldando a realidade de modo a se encaixar na narrativa bíblica.


Finkelstein afirma que a narrativa sobre Jezebel não é o que a Bíblia denuncia. Ela era uma princesa fenícia que seguia as crenças em que foi criada, e lutou por elas. Era uma mulher forte e corajosa, que manteve sua devoção mesmo tendo que viver num país estrangeiro. Uma mulher que foi fiel ao casamento político que lhe foi imposto, a fim de trazer paz ao reino dividido de Israel e deste com a Fenícia. Sua morte cruel trouxe consequências terríveis para Israel. Chocada com o assassinato de Jezebel, a Fenícia rompeu a aliança com o Reino de Israel, quebrando os acordos comerciais, situação que desestabilizou Israel e permitiu a invasão pela Assíria. Logo em seguida caiu o Reino de Judá, tendo início o cativeiro da Babilônia.



Baal era o deus dos fenícios e uma ameaça para Yaveh, o Deus Único de Israel. Os símbolos de Baal estavam relacionados com o feminino: Lua, Touro, Vaca e formado dos cabelos. Não é por acaso que a rainha Jezebel foi retratada como vilã da pior espécie, que Baal foi retratado na Bíblia como sendo uma divindade que “comia criancinhas”, tal qual os ultra-conservadores acusam a esquerda.



Só que, por trás das narrativas religiosas, patriarcais e monoteístas contra Jezebel estava a conquista da Terra de Canaã, o verdadeiro motivo para a campanha contra os deuses ditos pagãos e, sobretudo, contra à Deusa Mãe. Naquela ocasião Israel queria se apossar das cidades fenícias de Biblos, Sidon e Tiro, do mesmo jeito que ocupou as Colinas de Golã, na Síria, na Guerra dos seis dias em 1967. Esta região está em disputa até hoje e a Bíblia ainda continua sendo usada como documento histórico para “provar” que elas foram dadas por Deus através de uma aliança feita com um pacto de sangue. Não por acaso a narrativa sobre a Aliança entre o Deus Único e seu povo envolve questões como: patriarcado, pai, pátria, família, propriedade privada, primogenitura e herança. Também não é por acaso que tudo isso seja a base do sistema capitalista. Portanto, temos que acrescentar mais um elemento ao tripé:



O culto ao Deus Único institucionalizou o expansionismo judaico sobre a Palestina, Líbano e Síria,iniciando a mais longa e sangrenta de todas as guerras, com duração milenar. Os irmãos Ismael e Isaac são filhos do mesmo pai, Abraão, portanto essa guerra é fratricida.


Capela Sistina - Michelangelo Wikipedia.org


É comum se ouvir: Desde que o mundo é mundo sempre foi assim! Antigamente, eu ficaria muito incomodada com essa afirmação, e logo partiria para defender a ideia de que Deus não quis nada disso… Hoje, francamente, tendo a pensar que aqueles que pensam assim não deixam de ter razão. É claro que Deus quis assim, o Deus monoteísta, amado pelos capitalistas, pois que serve aos interesses deles, venerado pelos ultra-conservadores, pois, em nome da “tradição” tudo deve permanecer como está, inclusive a tão propalada – célula máter da sociedade - a “família”, que para eles deve ser conservada em seu sentido original: “fâmulus” = escravos domésticos. Esse é o Deus monoteísta e patriarcal que os ultra-conservadores criaram à sua própria imagem e semelhança.


No entanto, a arte foi e ainda é uma forma de contestação, denúncia e resistência. De forma muito provocativa e irreverente, Michelângelo fez questão de colocar a outra face do criador ao lado desse Deus misógino feito à imagem e semelhança dos ultra-conservadores, expondo seu lado oculto com todas as tintas. Observem que Michelângelo pintou as vestes de Deus com cor-de-rosa, para desespero da Damares.


O artista retratou a criação em dois momentos: de um lado Deus criou o Sol e a Lua, mas, em paralelo, Michelângelo retrata Deus criando as árvores e as plantas, que há milênios foi uma tarefa atribuída à Grande Mãe, à Mãe Natureza.



No entanto, na visão do artista, Deus cometeu um descuido, mostrando mais do que devia… Certamente o gênio da renascença quis deixar um recado bem dado com suas tintas e pinceis.



O sistema capitalista está tão imbricado com o sistema patriarcal que é impossível superar o machismo sem mexer no tripé de exploração, que mantém nossa sociedade, por isso temos que acrescentar mais um ítem, a religião, que funciona como amálgama de todos os outros. Em nome de Deus, pátria, família e propriedade o país colonialista explora os países colonizados, o capital explora o trabalho, o homem explora a mulher, e por aí vai… Mesmo que inconscientemente, cada menino circuncidado acaba assumindo todos os valores do “pacto de sangue”: Deus, pátria, família, tradição e propriedade privada.



Cirurgia de fimose é necessária quando severa, mas ela não pode ser usada como “pacto de sangue”. Chega de mutilação com finalidade religiosa! Chega de mutilar meninos na primeira semana de vida ou meninas com dentes de leite. Isso é crime! Se quisermos construir um mundo novo e melhor devemos começar pela não violação dos direitos das crianças. Nenhuma mutilação deve ser permitida seja em nome da cultura e menos ainda em nome de Deus.


Este texto foi apresentado no Canal Paz e Bem:



Bibliografia:



Quando tratar das invasões de Israel:


{Fenícios} Os garotos propaganda do capitalismo


Jezebel: A Cleopatra Fenícia

Sexualidade, cristianismo e poder:




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