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6 - ENHEDUANNA - A PRIMEIRA VÍTIMA

Atualizado: 29 de jan. de 2022


https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Disk_of_Enheduanna_(2).jpg


Para entender o cenário em que se deu o surgimento dos primeiros patriarcas é preciso mais do que os textos bíblicos. Tão importante quanto eles, as novas descobertas científicas ajudam a fazer uma contextualização das forças políticas em jogo no mundo por volta de 2.500 aC. Este período é emblemático para quem busca compreender o avanço do sistema patriarcal, irmão siamês da propriedade privada e da herança.


Hipóteses que fazem parte do cenário:


1 - Novas religiões foram disseminadas através das migrações indo-europeias?

2 - As divindades hindus foram veneradas em pleno Crescente Fértil?

3 - Terá sido Rama, do épico Ramayana, a versão hindu da saga de Abraão?

4 – Abraão e Rama foram o mesmo personagem?

5 - O início do patriarcado foi em Ur e está nos códigos de leis na Mesopotâmia?


Wikipédia

Muitos achados arqueológicos sugerem que o comércio marítimo ao longo das costas da África e da Ásia começou há vários milênios. Cerâmicas provenientes do Indo foram encontradas ao longo das rotas marítimas entre o Indo e a Mesopotâmia. As evidências de importações do Indo para Ur podem ser encontradas por volta de 2.350 aC. Vários objetos feitos com espécies de conchas que são características da costa do Indo, foram encontrados em sítios arqueológicos da Mesopotâmia datando de 2.500 aC. Contas de cornalina do Indo foram encontradas em túmulos de Ur datando de 2.600 aC. Em particular, algumas contas de cornalina desenhadas com uma técnica de gravação com ácido desenvolvida pelos habitantes de Harappa. O lápis-lazúli foi importado em grande quantidade pelo Egito e já era usado em muitas tumbas do período Naqada II (cerca de 3.200 aC). O lápis-lazúli provavelmente se originou no norte do Afeganistão, já que nenhuma outra fonte é conhecida, e teve que ser transportado através do planalto iraniano até a Mesopotâmia e depois o Egito. Vários selos hindus com escrita de Harapa também foram encontrados na Mesopotâmia, particularmente em Ur. Vários autores descreveram possíveis influências iconográficas da Mesopotâmia ao Vale do Indo e vice-versa. Nos sítios arqueológicos da civilização do vale do Indo, vinte e quatro pesos de pedra hematita do tipo mesopotâmico foram encontrados em Mohenjo-Daro e Harappa.


Há muito foi sugerido que os sumérios, que governaram entre 4.500 e 1.900 aC podem ter vindo da Índia. Análises genéticas do antigo DNA de esqueletos encontrados em sítios arqueológicos da região tendem a confirmar essa associação, porém, o tema é controverso.


A Civilização do Vale do Indo atingiu sua forma mais desenvolvida entre 2.500-1.800 aC, até se extinguir, mas nesta época, era uma civilização muito maior do que a civilização mesopotâmica. As trocas de DNA entre essas duas civilizações parecem ter sido mais significativas durante os períodos do Império Acadiano e Ur III, e foram diminuindo até o desaparecimento da civilização do Vale do Indo.


O Vale do Indo é separado do Oriente Próximo pelos planaltos áridos, cordilheiras e desertos do Irã e do Afeganistão, onde a agricultura de chuva só é possível nos sopés e vales. No entanto, esta área não foi um obstáculo intransponível para a dispersão do Neolítico.



A rota ao sul do mar Cáspio é uma parte da Rota da Seda, desde pelo menos 4.000 aC, conectando o planalto do Irã, Egito e Índia, onde se encontram vários sítios pré-históricos localizados ao longo dela. Notáveis semelhanças em estatuetas e estilos de cerâmica e formas de tijolos de barro entre os primeiros sítios neolíticos, amplamente separados pelas montanhas Zagros no noroeste do Irã, sugerem uma cultura comum, fato que envolveu grandes migrações de lado a lado. Essa possibilidade é suportada pelas análises do cromossomo Y e do DNA mitocondrial.


Ora, se a ciência demonstra a existência de miscigenação entre essas populações que, aparentemente estão distantes geograficamente, o que não terá sido a miscigenação de ideias e costumes?


A decifração da escrita cuneiforme usada há milênios pelos sumérios e depois pelos povos que os sucederam na região entre os rios Tigre e Eufrates, assim como a decodificação dos hieróglifos e da escrita demótica, trouxeram à luz informações que puderam ser comparadas com os livros sagrados, que falavam sobre a vida dos patriarcas das três principais religiões do mundo contemporâneo: Judaísmo, cristianismo e islamismo.



Dbachmann, CC BY-SA 3.0 - Wikimedia Commons


As migrações indo-europeias ou indo-arianas foram as migrações entre o subcontinente indiano e a Anatólia {antigo Mitanni} na Ásia Central, cujo ápice foi por volta de 2000 aC, cujo início é muito anterior, mas que, em uma difusão lenta, levou à mudanças profundas, inclusive da própria língua. As línguas iranianas, eram intimamente relacionadas com as indo-arianas. A cultura proto-indo-iraniana, que deu origem aos indo-arianos e iranianos, se desenvolveu nas estepes da Ásia Central. Os indo-arianos se separaram dos iranianos por volta de 2000 a 1600 aC dos quais emprestaram suas crenças e práticas religiosas distintas. A tese da migração de um povo indo-europeu foi levantada pela primeira vez no final do século 18, após a descoberta da família de línguas indo-europeias, quando as semelhanças entre as línguas ocidentais e indianas foram observadas.


Sem compreender o cenário em que se desenrola a saga de Abraão, sua saída de Ur em direção à Canaã, fica bastante difícil entender as razões para a quebra dos ídolos venerados por seu pai, como também as sucessivas ordens divinas para a quebra de ídolos que aparecem no Antigo Testamento, bem como as razões que o levaram a ser o primeiro patriarca. As migrações indo-arianas têm tudo a ver com Abraão, com o surgimento do Sistema Patriarcal e com a depreciação da mulher.


The disk of Enheduanna. Picture Credit: Zunkir. Creative Commons

O arqueólogo britânico Sir Leonard Woolley encontrou em 1927 o agora famoso disco calcítico de Enheduanna em suas escavações na antiga cidade de Ur. As três inscrições no disco identificam as quatro figuras descritas: Enheduanna, com toucado na cabeça, sua assistente Adda, seu cabeleireiro Ilum Palilis e a escriba Sagadu. Wooley também descobriu o complexo do templo onde as sacerdotisas foram enterradas em um cemitério especial.


A inscrição real no disco, diz: “Enheduanna, alta-sacerdotisa, esposa do deus Nanna, filha de Sargão, rei do mundo, no templo da deusa Innana”. A figura de Enheduanna é colocada proeminentemente no disco. enfatizando sua importância em relação aos demais e, além disso, sua posição de grande poder e influência na cultura de seu tempo.

Paul Kriwaczek, autor de “Em busca de Zaratustra: através do Irã e da Ásia Central para encontrar o primeiro profeta do mundo” e “Babilônia: Mesopotâmia e o nascimento da civilização”, diz que o significado do nome Enheduanna é: ‘En’ (chefe) hedu (ornamento) Anna (do céu). Ela foi a primeira mulher conhecida a ter o título de EN (chefe), um papel de grande importância política, muitas vezes mantido por filhas reais. Ela foi nomeada para o papel por seu pai, o rei Sargão de Akkad .


Kriwaczek ainda diz que, registros arqueológicos indicam que as ofertas continuaram a ser feitas para essas sacerdotisas mortas. Que um dos artefatos mais impressionantes, prova física da existência de Enheduanna, foi encontrado em uma camada datável de muitos séculos após sua vida, torna provável que ela, em particular, tenha sido lembrada e honrada por muito tempo após a queda da dinastia que a designara. a administração do templo. Mais uma prova de seu profundo impacto na cultura é que ela ainda é lembrada e honrada nos dias atuais e poemas ainda são compostos no modelo que ela criou há mais de 4.000 anos.

https://en.wikipedia.org/


Segundo o professor Joshua J. Mark, Enheduanna foi nomeada para o papel de Alta Sacerdotisa em um movimento político perspicaz por Sargon para ajudar a garantir o poder no sul do seu reino, onde a cidade de Ur foi localizada. Ela continuou a ocupar o cargo durante o reinado de Rimush, seu irmão, quando se envolveu em alguma forma de agitação política, foi expulsa e finalmente foi reintegrada como suma sacerdotisa. Sua composição ‘The Exaltation of Inanna’ ou ‘nin me šara’ detalha sua expulsão de Ur e eventual reintegração. Isto se correlaciona com ‘A Maldição de Akkade’ em que Naram-Sin, sob o qual Enheduanna também pode ter servido, foi amaldiçoado e expulso.


Cópias do trabalho de Enheduanna, muitas datando de centenas de anos após sua morte, foram feitas e mantidas em Nippur, Ur e em Lagash, junto com inscrições reais que indicam que eram de alto valor, talvez igual às inscrições de Reis .


Seu trabalho mais famoso é ‘The Exaltation of Inanna’ ou ‘Nin-Me-Sar-Ra’ que é uma devoção pessoal à deusa Inanna e também detalha sua expulsão da cidade de Ur. Os poemas de Enheduanna desempenharam um papel na consolidação do sincretismo entre Inanna e a deusa acadiana Ishtar. A autoria de Enheduanna levanta a questão da alfabetização feminina na antiga Mesopotâmia, além de Enheduanna, sabe-se que as esposas reais também compuseram poesias. Como observam os estudiosos do tema “até certo ponto os epítetos descritivos das deusas mesopotâmicas revelam a percepção cultural das mulheres e seus papel na sociedade antiga”. Para maiores informações, o trabalho de Enheduanna está disponível em tradução no Corpus de Texto Eletrônico da Literatura Suméria.

https://www.worldhistory.org/Enheduanna/


Todos esses acontecimentos ocorridos na cidade de Ur, que envolveram Enheduanna, uma personalidade religiosa que também desempenhava um papel político, devem ter deixado marcas profundas na memória daquela civilização. Enheduanna deve ter sido um grande divisor de águas: aqueles que estavam a seu favor, lutando com aqueles que estavam contra ela. Esta guerra envolveu mais do que a situação de uma mulher, de uma alta sacerdotisa, e sim uma luta religiosa muito mais profunda. De um lado os tradicionais deuses sumérios, de outro os deuses hindus recém chegados com as intensas migrações indo-arianas que estavam acontecendo naquele momento. O grito de guerra, “abaixo Enheduanna!” representava também “abaixo a Deusa Mãe!”


Para compreender a substituição implacável da Grande Mãe pelo Deus Pai, assim como a perseguição ao politeísmo e sua submissão ao monoteísmo, é preciso voltar ao tempo de Enheduanna há 4.300 anos e refazer o percurso do patriarca Abraão entre Ur e o Egito.


Não que o sistema patriarcal tenha começado em Ur, mas foi nesta cidade, no reinado de Sargão, onde foram encontrados os primeiros documentos que atestam a subjugação feminina na figura da Alta Sacerdotisa Enheduanna. Com a devida comprovação documental é possível afirmar que ela foi a primeira vítima do nascente sistema patriarcal.



A princesa Enheduanna, viveu há cerca de 4.300 anos e ocupou o posto de Alta Sacerdotisa de Ur, local que hoje chamamos de Iraque. Ela é a primeira pessoa conhecida do mundo cuja autoria de poemas foi autenticada. Enheduanna, era filha do Rei Sargão I, o Grande, de Acádia, e da Rainha Tashlultum. Foi consagrada como alta sacerdotisa do deus lunar Nanna na importante cidade de Ur, parte sul do reino. De seu templo ela governou tanto a vida espiritual quanto a vida política da cidade uma vez que não havia separação entre estas duas esferas. Ela escreveu seus hinos aos deuses e deusas sumérios e os assinou, tendo sua obra sido identificada como a primeira autoria conhecida na história mundial.


Conta um mito sumeriano que Sargão teve um sonho em que foi favorecido pela deusa Inanna, tornando-se o governante e a partir deste momento passou a prestar culto a ela através de sua filha Enheduanna, que assumiu as funções de sacerdotisa na maior cidade e centro do império de seu pai, a cidade de Ur. Ela foi a primeira mulher conhecida a deter o título de EN , um papel de grande importância política que muitas vezes era desempenhado por filhas reais.

https://stringfixer.com/pt/Enheduanna


Enheduanna escreveu três hinos a Inanna que sobreviveram e ilustram três temas bastante diferentes da antiga fé religiosa. Em um, Inanna é uma deusa guerreira feroz que derrota uma montanha, embora outros deuses se recusem a ajudá-la. Uma segunda, com trinta estrofes, celebra o papel de Inanna no governo da civilização e na supervisão do lar e dos filhos. Em uma terceira, Enheduanna invoca seu relacionamento pessoal com a deusa para ajudá-la a recuperar sua posição como sacerdotisa do templo contra o usurpador Lugal-ane.

https://www.greelane.com/pt/humanidades/hist%c3%b3ria--cultura/enheduanna-earliest-author-poet-3530817/


Lugal-ane, um descendente de Sargão I, reivindicou e conquistou o trono e governou a Acádia por 90 anos, sendo responsável pela expulsão de Enheduanna do templo e da cidade. Humilhada e exilada, ela começou a escrever poemas pedindo ajuda à deusa Inanna. Sua obra-prima “Rainha dos Poderes do Mundo” canta e invoca Inanna, na esperança que a deusa a ajude a combater aqueles que tomaram o poder à força e a expulsaram de Ur. O poema possui uma profundidade misteriosa. Além de sua obra-prima, mais de 40 hinos conhecidos foram escritos e assinados por Enheduanna.

https://stringfixer.com/pt/Enheduanna


Close up of Enheduanna

Rainha dos poderes do mundo é uma homenagem a uma deusa que transcende o bem e o mal, e que governa sobre tudo e todos com seu poder indomável. Ao longo de quatro milênios, o poema fala conosco e traz consigo uma energia selvagem e muito necessária. Pela primeira vez um autor foi nomeado, o que confere uma voz específica a alguém que fala ao leitor: “A ideia de uma pessoa por trás do texto nasceu com Enheduanna”, explica o tradutor dinamarquês dos poemas Sophus Helle:Fiquei completamente dominado por ela! Não sabemos muito sobre Enheduanna como uma figura histórica. Seu nome significa simplesmente "A Grande Sacerdotisa, que é o ornamento do céu".

https://forfatterweb.dk/enheduana
https://www.gucca.dk/dronning-over-verdens-magter-bog-p512700

Erudita, ela assinou 42 hinos {poemas narrativos} considerados a primeira composição de uma teologia sistemática. Seu trabalho enalteceu a Grande Mãe suméria Inanna, regente do tempo, das estações, da sexualidade, da fertilidade da terra e do sangue sagrado de todas as mulheres. Ao ser escolhida por seu pai, Sargão I, Enheduanna iniciou uma tradição que perdurou por 500 anos, pela qual o rei vigente instalava sua filha como Alta Sacerdotisa do templo, cujos nomes ficaram registrados.


O início do sacerdócio feminino perde-se nas brumas do tempo. É milenar. Contudo, o primeiro documento que faz referência a ele está datado de 2.334 aC, no qual Sargão de Akkad eleva sua filha Enheduanna ao posto de Alta Sacerdotisa.


Os rituais religiosos eram realizados em templos altos conhecidos como zigurates, construções suntuosas que se assemelhavam a montanhas, que tinham grande importância entre os sumérios, uma vez que representavam um ponto de passagem ou transição de um mundo para o outro. Nesta época o tempo era regido pelas fases da lua, sendo esta bem mais importante que o sol. A lua era regente do tempo, das estações, da fertilidade e do sangue sagrado de todas as mulheres.


Sacerdotisa é uma palavra derivada do latim sacerdos (sagrado) e otis (representante), portanto, uma “representante sagrada”. O sacerdócio foi mantido na Suméria através do rito do “casamento sagrado”, ritual que se estendeu pelo Antigo Oriente Próximo chegando até a Europa pelos celtas. Acreditava-se nas religiões politeístas que o ritual do casamento sagrado era determinante para assegurar uma boa colheita nos campos, nos rebanhos e entre os humanos. Com o advento do judaísmo as interpretações hebraicas foram descaracterizando as sacerdotisas, os rituais próprios das religiões ligadas à Natureza e a própria Deusa-Mãe, reduzindo a mulher à condição de submissão ao homem. Quando a Deusa Mãe perdeu seu status sagrado uma violenta desvalorização da mulher teve início culminando com a perda do direito materno até chegar a instituição do “Patrio poder”.


http://www.historialivre.com/revistahistoriador/espum/regina.pdf Enheduanna
https://historyandarchaeologyonline.com/enheduanna-politician-priestess-poet-and-scientist/
https://notaterapia.com.br/2020/04/26/o-primeiro-autor-do-mundo-foi-uma-mulher-incrivel-animacao-conta-a-historia-de-enheduana/
http://sagrado-feminino.blogspot.com/2009/10/sacerdotisa-de-inanna.html

Dizem os autores que tratam do legado de Enheduanna que ela recebeu de seu pai e rei a missão de fundir os deuses sumérios {muito mais antigos} com os acadianos, a fim de criar a estabilidade que seu império precisava. Há 2.300 anos antes de Cristo as divindades femininas estavam sendo substituídas pelas divindades masculinas. Os símbolos lunares estavam sendo substituídos pelos símbolos solares, masculinos, no entanto essa transição não foi fácil, a ponto de os deuses terem que adotar nomes e símbolos femininos para serem aceitos como tal. As reflexões de Enhenduanna sobre o deus da lua Nanna, por exemplo, fizeram dele um personagem mais profundo, porém não tão elevado quanto Inanna, a Rainha dos Céus. Além desse sincretismo, os estudiosos identificam outro, entre a deusa suméria Inanna e a deusa acadiana Ishtar.


Através de seus trabalhos escritos, Enheduanna organizou e presidiu o complexo político-religioso do templo de Ur, redescobertas nos tempos modernos, e que permaneceram modelos de oração peticionária que influenciaram e inspiraram as orações e os salmos da Bíblia hebraica, assim como os hinos homéricos da Grécia. Através deles, ecos podem até mesmo ser ouvidos no hinário da igreja cristã primitiva. A saga de sua expulsão e posterior reintegração se correlaciona com outra, ‘A Maldição de Acade’ onde é narrado que Naram-Sin, rei da linhagem de Sargão, sob o qual ela pode ter servido, foi amaldiçoado e expulso por Enlil, um dos deuses sumérios. De acordo com William Hallo e JJA van Dijk, um homem chamado Lugal-ane comandou uma grande revolta contra Naram-Sin, ocasião em que Enheduanna foi expulsa de Ur e posteriormente reintegrada, graças, diz ela, à sua “Rainha” Inanna.

https://sagradofeminino.qoya.shakti.org.br/enheduanna-poeta-e-alta-sacerdotisa-acadiana/
https://aindahatemposite.wordpress.com/2017/08/04/enheduana-a-primeira-escritora-na-historia-a-assinar-a-autoria-de-suas-obras/


É provável que ao posicionar a Deusa Inanna como a principal e mais poderosa dentre os deuses do panteão sumério {lembrando que a suméria havia sido conquistada por outros povos dois milênios antes do Império Acadiano} Enheduanna afrontou a nova crença que havia chegado com as grandes migrações indo-europeias. Esta nova crença promovia a substituição da Grande Mãe em favor do Deus Pai, enaltecia mais a guerra do que os cultos à fertilidade, desprezava o feminino em favor da ascensão do masculino. A nova religião possuía como símbolo o Carneiro em detrimento dos símbolos ancestrais da Grande Mãe. Apesar de toda destruição do legado anterior, o deus Nanna teve que adotar um nome quase idêntico ao da Deusa, Inanna, assim como o símbolo da Lua em seu próprio nome para ser legitimado. O rei Naram-Sin fez o mesmo.


Para compreender a substituição implacável da Grande Mãe pelo Deus Pai, a perseguição ao politeísmo e sua submissão ao monoteísmo, a ascensão do patriarcado e a subordinação da mulher ao homem, é preciso voltar 4.300 anos atrás a fim de entender as mudanças ocorridas nos dois maiores impérios da época: Acádia e Egito.


A instituição do patriarcado e do monoteísmo não aconteceram de forma pacífica. A partir de um contexto politeísta, a centralidade em Yahweh foi um processo violento, que demonizava o diferente, atacando-o como uma ameaça, em um processo nítido de intolerância religiosa e destruição da cultura anterior. A supressão do culto, dos ritos e da imagem da Deusa trouxe consequências profundas, afetando em especial as mulheres, que tinham nela uma possibilidade de representação do sagrado feminino. Nesse processo foram destruídos todos os símbolos que evocavam o feminino. Assim, com base no esmagamento do outro, a religião judaica foi sendo constituída em torno de um Deus velho, masculino, sustentado por uma sociedade patriarcal.

http://exegeseoriginal.blogspot.com/2015/02/
Rama - Pinterest

RAMA, o herói civilizatório hindu pode ser considerado como equivalente a Yahweh. Ambos surgiram no contexto das migrações indo-arianas, ambos implantaram o patriarcado, ambos destronaram a Grande Mãe e a substituíram pelo Deus Pai, ambos fizeram da mulher a "Rainha do Lar", submissa ao homem, é claro. Alguns teóricos trabalham com a hipótese de que ambos são o mesmo . {voltaremos ao tema}


Tal qual as crenças e deuses, os símbolos de RAMA chegaram a Mesopotâmia e provocaram a perda de status que a mulher detinha. Foi o que ocorreu em Ur. Enheduanna, a Alta Sacerdotisa, foi destituída de seu posto de Suma Sacerdotisa e exilada. Seu oponente, Naram-Sin, visando a tomada de poder, usurpou o trono e exibiu a coroa real com chifres de carneiro, símbolo de Rama, {a palavra Ram significa carneiro}. Este fato traz algo inédito, pois a coroa adornada com chifres de touro era destinada apenas às divindades. Ao ser representado com a coroa adornada de chifres o rei Naram-Sim assumiu a posição de divindade, fato jamais visto anteriormente. Por esta razão ele foi amaldiçoado e seu reinado extinto.

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/naram-sin-o-rei-que-se-achava-um-deus.phtml

A Acádia foi o primeiro reino da Mesopotâmia a empreender uma campanha de dominação de toda a região e se tornar um império. Isso ocorreu pela mão de seu fundador dinástico, Sargão da Acádia, que deixou para seu sucessor um império cuja estabilidade política era considerável e que ia de Ur, na Suméria até os reinos de Mari, no médio Eufrates. Isso mudará na mãos de seu neto, Naram-Sîm, a partir de 2255 aC.



Stèle_de_la_victoire_de_Naram-sin_détail_rwk wikimedia commons

A famosa Estela da Vitória de Naran-Sîn {atualmente no Louvre}, nos permite perceber um detalhe extremamente relevante na representação imagética do rei: seu adereço de cabeça contém um par de cornos entalhado. Num primeiro momento, pode parecer irrelevante, mas quando analisamos as tradições imagéticas nessa sociedade, percebemos algo escandaloso. Os cornos adornando o capacete é um artifício para distinguir na imagem a presença de um deus.


Sabendo que são os próprios reis que ordenam a construção, por exemplo, de uma estela para celebrar conquistas militares, fica marcada a tentativa de Naram-Sîn de ser considerado uma divindade, tal qual o faraó no Egito, venerado como "Filho de deus".


O grande problema político desse ato é o conflito que se cria com a tradição política local e suas instituições. Ou seja, quando Naram-Sîn se declara deus, em contradição com toda a cultura religiosa acadiana da época, ele está declarando guerra aos sacerdotes e isso representou um perigo para o futuro do Império Acadiano. O impacto do seu gesto foi tamanho que ele foi amaldiçoado.

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/naram-sin-o-rei-que-se-achava-um-deus.phtml

A coroa real adornada com os chifres do carneiro aparece na cabeça de Na-Ram-Sin, que reinou de 2.255 a 2.218 aC, sob quem as artes floresceram, destacando-se a Estela da Vitória descoberta em Susa, celebrando uma de suas vitórias. Ele é representado barbado e com traços semíticos. Ele foi o primeiro monarca daquelas terras {Entre Tigre e Eufrates} a ser deificado em vida, indicando a introdução de novas ideias, possivelmente estrangeiras, pois desde os sumérios {que reinaram milênios antes} nelas não se deificavam reis ou ancestrais, somente os deuses.


Donald A. Mackenzie, Myths of Babylonia and Assyria (1915), Chapter VI, Wars of the City States of Sumer and Akkad

A Suméria não esteve unificada em um único reino. A região era constituída por um ajuntamento de cidades-estados em permanente disputa. Nos relatos míticos os deuses sempre apareciam portando um toucado adornado com chifres.


God Ea, 2004-1595 BCE. Iraq Museum - Wikimedia Commons


Não sendo um deus, o monarca sumério governava e legislava a partir da autoridade concedida pelos deuses. Mas isso mudará com Naram-Sin que reinou a Acádia de 2.255 a 2.218 aC. Diferente de outras imagens, na Estela da Vitória, Naran-Sin se faz representar com um detalhe extremamente importante, que indica a transformação na representação imagética do governante: Ele usa cornos em sua coroa, o que antes era exclusividade dos deuses.


Na Suméria a coroa com cornos de touro era um artifício para distinguir a divindade daquele que não era. Este artifício era usado ao representar a divindade portando uma coroa com cornos, como fica claro nos casos dos reis Ur-Nammu e Hamurabi diante do deus-sol Shamash. O deus usava a coroa de cornos enquanto o rei um casquete desprovido dos mesmos. No entanto, na Estela da Vitória, Naram-Sim se faz representar com o toucado reservado aos deuses na tentativa de ser considerado sua representação terrena, da mesma maneira como o faraó era retratado no Egito. O impacto deste ato foi tão grande que séculos depois a Estela de Hamurabi volta a apresentar o deus-solar Shamash com o toucado de chifres e os adereços das cabeças reais despojadas desse símbolo.

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/naram-sin-o-rei-que-se-achava-um-deus.phtml


Hamurábi diante do deus do sol Utu/Shamash - Wikimedia Commons

A moda lançada por Naram-Sin, que reinou de 2 255 a 2 218 aC, foi mais longe do que o uso dos cornos como adereço no seu toucado, foi a troca do animal-símbolo. Se desde a Suméria, mais de dois milênios antes, o animal reverenciado era o touro, na III dinastia de Ur foi o carneiro. Esta mudança está diretamente relacionada com a “derrubada” do culto à Grande Mãe e sua substituição por um deus macho, com as consequentes repercussões sobre a vida das mulheres.


A coroa com chifres de carneiro inaugurou o símbolo patriarcal, o símbolo do deus único, no mesmo momento em que eram destruídos os símbolos da Grande.


No Egito, o símbolo do carneiro ganhou notoriedade um pouco mais tarde, entre 1570 e 1544 aC, no início do Novo Império, depois das conquistas tebanas sobre os hicsos, que os expulsou do Delta do Nilo. Essa conquista militar-religiosa marcou o surgimento do exército como força organizada e sua aliança com o clero tebano, cujos sacerdotes reverenciavam Amon, o deus carneiro. É deste período a construção da entrada do Templo de Karnac, com sua alameda de esfinges de carneiro.


Durante o Império novo foi construída a avenida das esfinges na entrada do Templo de Karnac, duas fileiras de estátuas com cabeça de carneiro, simbolizando o deus Amon, aquele que protege o faraó. O predomínio do deus carneiro se estendeu de Ur, na Mesopotâmia, a Tebas, no Egito, provavelmente se alargando e indo muito além. Ram, o carneiro, símbolo da força masculina foi personificada no ariete. Máquina de guerra usada na Antiguidade e na Idade Média para abrir brechas em muralhas ou portões de castelos e povoações fortificadas. Os assírios empregaram-no com muita perícia. Alexandre, o Grande, usou-o em suas conquistas, assim como o Império Romano.


Wikimedia Commons

O início da dominação masculina se perdeu nas brumas do tempo, porém, é possível identificar o local de nascimento do Patriarcado: Ur; e Abraão é o personagem. Acredita-se que Abraão teria vivido entre os séculos 21 e 18 aC, exatamente no período identificado como tendo ocorrido uma das grandes migrações indo-arianas.


Abraão foi o personagem que catalisou a mudança de paradigma que já vinha ocorrendo desde o ataque de Naran-Sin aos símbolos femininos e à mulher, como atestam os documentos sobre Enheduanna, a primeira vítima do patriarcado. Certamente os ataques misóginos começaram muito antes, contudo, Enheduanna foi a primeira mulher cuja perseguição foi possível ser comprovada através de documentos.


O processo de usurpação do trono da Grande Mãe pelo Deus Pai foi sendo construído ao longo dos dois impérios que dominaram há 5 mil anos, a Mesopotâmia e o Egito, com a Palestina entre ambos. Foi no chamado Crescente Fértil que surgiram os primeiros códigos de leis e depois as leis de outro patriarca, Moisés.


No período de transição da III Dinastia de Ur (2112-2004 aC.) até a ascensão do Império Babilônico (1792-1595 aC.) surgiram os primeiros compêndios de leis. O mais antigo é o Código de Ur-Nammu, aproximadamente 2112-2095 aC, depois dele vieram as Leis de Eshnunna {uma cidade da antiga Mesopotâmia}, datado de 1825-1787 aC, que consistiram na fusão entre Direito Penal e Civil, que futuramente seria a base do Código de Hamurabi; e, finalmente, o mais famoso, o Código de Hamurabi, datado entre 1792-1750 aC.

https://jmbrandet.jusbrasil.com.br/artigos/432079986/historia-do-direito-o-codigo-de-eshnunna

Todos eles tratam da subordinação da mulher ao homem, como bem descreve Célia do Carmo José no artigo A mulher e o casamento nas Leis de Eshnunna (LE) e no Código de Hammurabi (CH). Diz ela:


Quer as Leis de Eshnunana, quer o Código de Hamurabi mostram que a mulher estava claramente em situação de desvantagem. Por toda a vida ela era considerada sob a autoridade de um homem: ora do pai, ora do marido. O pai tinha o controle das filhas até o casamento. Competia-lhe escolher o noivo mais vantajosos para a família, vender as donzelas, penhorá-las ou resgatá-las e reclamar o direito de herança. O pai também podia consagrá-la como sacerdotisa ou entregá-la como concubina (LE). Na ausência do pai o direito de comando era assumido pelos irmãos mais velhos (CH). Não havia pois possibilidade de escolha para a jovem mulher, até porque tais decisões eram tomadas ainda na sua infância. Os exemplos apontados mostram de forma categórica a prepotência masculina, ainda que matizada por uma série de atenuantes legais: entrega do dote à filha leiga ou sacerdotisa, esta última com o privilégio acrescido de isenção tributária e gestão dessa mesma herança, com ou sem auxílio dos irmãos, conforme dito no CH (itens 138 e 179)

https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/23950/1/Cadmo17_artigo1.pdf

Agora é hora de concluir sobre as hipóteses iniciais desse cenário:


1 - Novas religiões foram disseminadas através das migrações indo-europeias?


Sim, as migrações indo-europeias tiveram um papel relevante na cultura de inúmeros povos. E como naquele tempo a religião não era separada da vida social e política, os estudiosos concluem que tais migrações tiveram um papel relevante na disseminação das crenças religiosas.


Numa Denis Fustel de Coulanges, historiador francês, que publicou em 1864 A Cidade Antiga, toma como exemplo o culto ao fogo. Os gregos designavam a família com o termo epístion, que significa “que está junto ao fogo”. O culto do fogo sagrado é um dos exemplos tomados pelos estudiosos para confirmar a similitude dos ritos encontrados entre os povos da Grécia e da Itália, mas também no Oriente. O brâmane deve manter o fogo aceso dia e noite; ele o alimenta com lenha, mas como entre os gregos e itálicos, só o pode fazer com determinadas madeiras, indicadas pela religião. Entre os indo-europeus a religião era puramente doméstica, sua prática foi encontrada entre os habitantes do Mediterrâneo até o Vale do Indo. Certamente os gregos não tomaram dos hindus tais práticas, nem estes as apreenderam dos gregos, porém, estes povos descendem de uma mesma raça cujos antepassados conviveram na Ásia Central, provavelmente no que hoje chamamos de Ucrânia e Irã, onde tais crenças se originaram. Quando as diversas tribos se separam levaram consigo esse culto comum.

http://ebooksbrasil.org/eLibris/cidadeantiga.html


2 - As divindades hindus foram veneradas em pleno Crescente Fértil;

3 - Terá sido Rama, do épico Ramayana, a versão hindu da saga de Abraão?

4 – Abraão e Rama foram o mesmo personagem?

Estas três hipóteses foram brevemente anunciadas, mas não devidamente tratadas, pois necessitam de uma explicitação maior, o que implicaria num desvio do propósito inicial, que foi traçar o cenário em que se deu o surgimento do patriarcado. No entanto, voltaremos a cada uma delas nos próximos textos.


5 - O início do patriarcado está nos códigos e leis na Mesopotâmia?

Não. Embora estes documentos comprovem a predominância masculina sobre a mulher, o início do patriarcado não está nos códigos e leis surgidos na Mesopotâmia. Esta dominação vinha sendo construída desde a instauração da propriedade privada no decorrer da Revolução Agrícola, há muitos e muitos milênios. Já o patriarcado se constitui com Abraão, que viveu por volta de 2000 aC, no mesmo período das migrações indo-arianas. Tais migrações trouxeram novos ritos e mitos, o que provocou uma verdadeira revolução religiosa desde a Mesopotâmia até o Vale do Indo, provocando um movimento que desembocará na Revolução Monoteísta ocorrida no Egito, com Akhenaton e Moisés, 500 anos depois. Voltaremos a este tema.





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