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4 - O MITO DE ORIGEM

Atualizado: 29 de jan. de 2022



Lucas Cranach. Wikimedia Commons


O patriarcalismo é indissociável do mito judaico da criação.


Para o sociólogo peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930), os povos capazes de construir um mito sólido têm maiores chances de se perpetuar. Todo mito pode ser considerado uma parábola, ou seja, uma narrativa construída para passar um conjunto de ideias ou ensinamentos que não seriam facilmente assimiláveis se transmitidos de outra forma que não a alegórica. De todos os mitos da criação existentes, o povo hebreu foi responsável por construir uma narrativa dominante sobre a origem da humanidade, além de conseguir transmiti-la globalmente.


Ao atravessar diferentes civilizações ao longo dos últimos milênios a cultura hebraica exerceu tal poder sobre o mundo ocidental que este ainda nos impede de analisar suas narrativas sob a ótica da ciência. É o caso do Evolucionismo que, desde a apresentação dessa teoria por Charles Darwin, teve início uma infindável controvérsia entre criação versus evolução. Nos Estados Unidos, o “criacionismo” tornou-se o primeiro termo específico associado ao surgimento do ser humano e do planeta Terra, utilizado pelos cristãos fundamentalistas, que assim expressam seu desacordo com a teoria da evolução. O criacionismo se baseia nas concepções religiosas do judaísmo. Defende que o Universo e tudo quanto há foram criados por Deus. Existem muitas versões da teoria criacionista. O Criacionismo da Terra Jovem crê que Deus a criou e nela a humanidade, ambas do modo como são hoje. Já o Design Inteligente cre que a intervenção divina levou ao que seria a evolução das espécies. Não pense que esta é uma questão menor e ultrapassada. Ao contrário, ela nunca esteve mais atual do que agora, inclusive no Brasil. Porém, esse não é o foco do que se pretende discutir agora. Mas, não deixe de ler as sugestões que seguem para poder ficar por dentro desse tema:


O papel do “criacionismo científico” no fundamentalismo protestante Haller Elinar Stach Schünemann


O MITO É UMA HISTORINHA QUALQUER?


Adão, Eva e a serpente na entrada da Catedral de Notre Dame em Paris. Wikimedia Commons

Mircea Eliade (1907-1986) considera que “o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do "princípio”. Segundo ele, um mito narra uma realidade que não existia e que passou a existir. Os personagens dos mitos são entes sobrenaturais, que muitas vezes tomam forma antropomórfica, para explicar didaticamente o surgimento de tudo quanto há desde os primórdios do universo, do nosso planeta, da atmosfera, dos seres vivos e dos seres humanos em especial. Os mitos revelam a atividade criadora de tais entes sobrenaturais e imprimem sacralidade às suas obras. Em suma, os mitos descrevem as diferentes e dramáticas irrupções do sagrado no mundo. É essa irrupção que fundamenta nosso mundo e o converte no que conhecemos dele.

Mircea Eliade, Mito e Realidade. Ed. Perspectiva, SP, 1972.


Mircea Eliade (1907-1986) nasceu em Bucareste, formou-se em Filosofia e partiu para Índia, tendo ali estudado sânscrito e filosofias do sudeste asiático e contribuído de forma valiosa para a compreensão do que entendemos por religião e também para a compreensão das funções do mito. Além dele, o chamado Pai da Psicologia, Sigmund Freud (1856-1939), valeu-se dos mitos, geralmente gregos, para decifrar o papel desempenhado pelo inconsciente no comportamento humano. Seu mais destacado aluno, Carl Gustav Jung (1875-1961) ampliou a teoria do mestre e elaborou o conceito de inconsciente coletivo, que se constitui dos mitos, imagens e materiais imagéticos, comuns a todos os seres humanos.


Tanto Freud como Jung foram leitores vorazes dos mitos e rituais dos povos primitivos, embora eles tenham tido divergências quanto à origem e função do mito. Para ambos, o mito provém do inconsciente e deve ser interpretado simbolicamente. Freud encontrou na mitologia grega um grande substrato para a compreensão dos processos psíquicos de seus pacientes. Já Jung acrescenta a existência do inconsciente coletivo que, através do mito, se revela à consciência e, tanto quanto o inconsciente pessoal, serve de substrato para a compreensão dos processos psíquicos dos pacientes. O inconsciente coletivo é a manifestação mais profunda do inconsciente pessoal, onde jazem adormecidas imagens humanas universais e originárias, às quais Jung deu o nome de arquétipos.

Assim, para os especialistas, a função mestra do mito é fixar os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as ações humanas significativas. O mito revela os estágios do desenvolvimento humano e as várias possibilidades de “ser” humano.


Segundo Eliade, o advento da Modernidade gerou o desprezo pelas mitologias e teologias, decorrente da crescente racionalidade, no entanto, diz ele, “os mitos se degradam e os símbolos se secularizam, mas eles nunca desaparecem”.


“Um mito narra os acontecimentos que se sucederam in princípio, ou seja, “no começo”, em um instante primordial e atemporal, num lapso de tempo sagrado. Esse tempo mítico ou sagrado é qualitativamente diferente do tempo profano, da contínua e irreversível duração na qual está inserida nossa existência cotidiana dessacralizada. Um mito retira o homem de seu próprio tempo, de seu tempo individual, cronológico, “histórico” – e projeta, pelo menos simbolicamente, no Grande Tempo, num instante paradoxal que não pode ser medido por não ser constituído por uma duração. O que significa que o mito implica uma ruptura do Tempo e do mundo que o cerca; ele realiza uma abertura para o Grande Tempo, para o Tempo Sagrado. Qualquer que seja a sua natureza, o mito é sempre um precedente e um exemplo, não só em relação às ações – “sagradas” ou “profanas” – do homem, mas também em relação à sua própria condição. Ou melhor: um precedente para os modos do real em geral... com efeito, uma boa parte dos mitos, ao mesmo tempo que narra o que fizeram in illo tempore {em tempo remoto} os deuses ou seres míticos, revela uma estrutura do real, inacessível à apreensão empírico-racionalista.”


Em outras palavras, para sermos justos com o mito, não podemos afirmar que sua narrativa se refere a algo que realmente ocorreu num passado longínquo, tampouco podemos negar a importância que ele exerce na formação de nossa real estrutura da sociedade humana. Eliade afirma que a principal função do mito é romper as barreiras das situações históricas, projetando os indivíduos para o Tempo Sagrado, no qual o tempo cronológico é considerado Profano e deve ser abolido. Quando isso não acontece faz-se um uso inadequado do mito. Infelizmente, foi o que aconteceu com os textos judaicos-cristãos usados como “fonte histórica” para fins políticos e bélicos.


Essa utilização indevida dos textos sagrados judaicos não pode ser contestada durante muito tempo, já que o Antigo Testamento era o único relato existente. Contudo, com o avanço da ciência, sobretudo com a decifração de textos antigos, escritos em hieróglifos, demótico e cuneiforme, bem como os achados arqueológicos como os de Nag Hamadi, Biblioteca de Assurbanipal e outros, um novo tempo teve início. Muita informação nova chegou para ser cotejada com os relatos bíblicos e o resultado foi o surgimento de muito mais perguntas do que certezas.


Com o avanço da ciência, sobretudo nas áreas da paleontologia e da genética, Adão e Eva são tão reais quanto “Lucy” um esqueleto de Ausytralopithecus de 3,2 milhões de anos descoberto em 1974 e aceita como a primeira ancestral dos seres humanos, que alguns cientistas chamam de “Mãe da Humanidade”. Lucy é tão “Mãe da Humanidade” quanto Eva, com a diferença que Lucy permanecerá com o título até ser destronada, quando a ciência descobrir fósseis mais antigos do que ela. Quanto a Eva, esta jamais perderá o trono, porque ela faz parte de um mito que continuará habitando as crenças e o imaginário popular.



Da mesma forma que o nascimento de Adão e Eva é um mito que relata acontecimentos ocorridos no tempo primordial, constituindo-se uma parábola didática para explicar a criação humana, sem que tenham necessariamente existido na realidade, é possível que os principais protagonistas do sistema patriarcal, Abraão e Moisés, assim como o próprio povo judeu, jamais tenham existido. Isto é o que revelam alguns cientistas a partir de descobertas arqueológicas.

Israel Finkelstein (1949), professor de Arqueologia na Universidade de Tel Aviv e Neil Asher Silberman (1950), diretor do Centro de Arqueologia Pública na Bélgica, são autores de A Bíblia Não Tinha Razão (Ed. Vozes, 2001), no qual afirmam que o Antigo Testamento é um dos mais importantes registros culturais, mas não pode ser tomado como documento histórico, passível de comprovação científica, uma vez que a análise arqueológica das narrativas dos Patriarcas, Conquista, Juízes e Reis demonstram que não há evidências convincentes de sua existência. E eles não são os únicos a pensar assim. O professor de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv, Ze'ev Herzog (1941), também chega a conclusões similares. Israel Finkelstein concedeu uma entrevista para a Universidade Metodista de São Paulo, e seria muito interessante vê-la na íntegra.


Estes autores, começaram a questionar as datações de descobrimentos arqueológicos que foram aceitas sem questionamento pela maioria dos estudiosos, sobretudo depois de 1948, ano em que se deu a criação do Estado de Israel, com base na resolução aprovada no ano anterior pela Organização das Nações Unidas (ONU) que autorizava a divisão da Palestina em dois estados: um árabe e um judeu. Como a política dominava o cenário, a arqueologia foi usada como instrumento ideológico para confirmar o que estava escrito na Torá a fim de assegurar aos judeus o direito de voltar a ocupar a terra que eles alegam lhes fora dada por Deus. Alguns arqueólogos não aceitaram se calar e, usando técnicas inovadoras e rigorosa metodologia de trabalho, como por exemplo a datação por radiocarbono, Finkelstein e outros puderam dar sustentação científica às suas hipóteses de trabalho, elevando o nível da discussão e abstraindo-a da propaganda ideológica e dos interesses políticos. É de se imaginar que isso não tenha sido fácil para eles.


Em, A Bíblia não tinha razão, os autores afirmam que, apesar das pesquisas arqueológicas modernas e dos meticulosos registros egípcios do período de Ramsés II, não há evidência de que os israelitas tenham conquistado Canaã depois do Êxodo, tal como está sugerido no livro de Josué, mas que, de fato, eles estavam lá desde sempre. Os Israelitas eram simplesmente cananeus que se desenvolveram culturalmente como grupo divergente, tal qual católicos e protestantes não são dois povos diferentes, mas um único povo com divergências religiosas. Assim, judeus e palestinos têm origem comum e fazem parte do mesmo povo.


Finkelstein deu uma interessante entrevista ao jornal argentino La Nacion, da qual foram extraídos os pontos mais importantes e recomenda-se seja lida na íntegra. Afirma Finkelstein que a arqueologia moderna permite assegurar que o Pentateuco foi uma criação da monarquia tardia do reino de Judá, destinada a propagar a ideologia e as necessidades desse reino. Ele crê que a história deuteronômica foi compilada durante o reino de Josias, a fim de servir de fundamento ideológico às ambições políticas e reformas religiosas particulares. Diz ele:


"Segundo a Bíblia, os descendentes do patriarca Jacó permaneceram 430 anos no Egito antes de iniciar o Êxodo guiados por Moisés, em meados do século XV AEC. Os textos sagrados afirmam que 600.000 hebreus cruzaram o Mar Vermelho e que erraram durante 40 anos pelo deserto antes de chegarem ao monte Sinai, onde Moisés selou a aliança de seu povo com Deus. No entanto, os arquivos egípcios não registraram nenhum rastro de presença judaica durante mais de quatro séculos em seu território, nem dos locais mencionados no relato. As cidades de Pitom e Ramsés, que teriam sido construídas pelos hebreus escravos antes de partir, não existiam no século XV AEC. Portanto, o Êxodo, do ponto de vista científico, não resiste à análise.

A história dos patriarcas está cheia de camelos, no entanto, a arqueologia revela que o dromedário foi domesticado somente no final do segundo milênio antes da era cristã, tendo começado a ser usado como animal de carga no Oriente Médio muito tempo depois. A história de José diz que a caravana de camelos transportava bálsamo, goma e láudano. Entretanto, essa descrição não corresponde com a suposta época de José e sim ao comércio realizado pelos mercadores árabes sob o controle do império assírio nos séculos VIII e VII AEC.

Desde o século XVI AEC, o Egito havia construído em toda a região uma série de fortes militares, perfeitamente administrados e equipados. Nada, desde o litoral oriental do Nilo até o mais distante dos povos de Canaã, escapava ao seu controle. Quase dois milhões de israelitas que tivessem fugido pelo deserto durante 40 anos deveriam ter chamado a atenção dessas tropas. No entanto, nem uma estela da época faz referência a essa gente. (A palavra estela provém do termo grego e significa "pedra erguida" e em arqueologia é usada para designar objetos em pedra nos quais eram efetuadas esculturas em relevo ou textos.) Nem sequer há rastros deixados por essa gente em sua peregrinação de 40 anos. Temos sido capazes de encontrar rastros de minúsculos casarios de 40 ou 50 pessoas. A menos que essa multidão nunca tenha parado para dormir, comer ou descansar: não existe o menor indício de sua passagem pelo deserto. Em resumo, os hebreus nunca conquistaram a Palestina.

Até o final do século VII AEC havia em Judá uma efervescência espiritual sem precedentes e uma intensa agitação política que resultou na elaboração de uma saga épica composta por uma coleção de relatos históricos, memórias, lendas, contos populares, histórias, profecias e poemas antigos que serviram de fundamento espiritual aos descendentes do povo de Judá. Essas histórias foram embelezadas para servir ao projeto do rei Josias de reconciliar os dois reinos israelitas (Israel e Judá) e impor-se contra os grandes impérios regionais: Assíria, Egito e Mesopotâmia. O objetivo para tal projeto foi religioso: Os dirigentes de Jerusalém lançaram um anátema contra a veneração de divindades estrangeiras, oriundas dos grandes impérios, acusadas de serem a origem dos infortúnios que os judeus padeciam. Colocaram em marcha uma campanha de purificação religiosa, ordenando a destruição dos santuários locais. A partir desse momento, o templo que dominava Jerusalém devia ser reconhecido como único local de culto legítimo pelo conjunto do povo de Israel."


O monoteísmo moderno nasceu dessa "purificação" religiosa.


Em paralelo ao monoteísmo, o patriarcalismo foi se tornando uma instituição cada vez mais atuante até se tornar completamente dominante.


Quando Freud afirma que o monoteísmo surge como consequência do combate ao politeísmo, onde a mulher predominava com sua intuição e magia, é lícito concluir que a subordinação da mulher está associada ao monoteísmo, tanto quanto a sua demonização está relacionada com feitiçaria, bruxaria e magia, crimes que lhe são imputados há milênios.


Se no passado os homens não dominavam as mulheres, eles devem ter sido dominados por elas!


Embora os dados científicos não comprovem tal afirmativa, o senso comum gerou a ideia do Matriarcado como sendo um Patriarcadoao inverso, mesmo que as evidências arqueológicas não confirmem esta tese. As mulheres ancestrais tinham muito poder, é verdade, mas não dominavam os homens. Nada mais fantasioso que isso, diz Riane Eisler. {O Prazer Sagrado: Sexo, mito e Política do Corpo. Ed Rocco, 1996}.


O poder exercido por essas mulheres refere-se àquele necessário para gerar e proteger a vida. Porém, em algum momento da história, o homem se apossou do poder da mãe {que é o cuidado em relação ao outro} e o substituiu pelo poder do pai {ditar a lei e dominar outro}.


A palavra “pai” nem mesmo existia no páleo-neolítico, e quando ela finalmente surge com o patriarcado, ela não significa nenhuma das coisas que nós geralmente associamos a ela, diz Maria Mies, autora de Patriarchy & Accumulation on a World Scale. Quando o conceito de pai aparece na história, ele não significava o pai físico que toma conta de seus filhos. O conceito de pai foi desde o início um ser institucional abstrato, um conceito de hierarquia, mando e dominação. O pai aparece desde o início em conexão com o conceito de dominação, o soberano legal, Deus, algo sobre-humano, no dizer de Freud.


Para Riane Eisler (O Cálice e a Espada: Nossa História, Nosso Futuro. Ed Imago, 1989), o mais notável na arte neolítica é o que ela não retrata, pois o que um povo não retrata em sua arte pode nos falar tanto a seu respeito quanto aquilo que ele deixou gravado. Em agudo contraste com a arte posterior é a ausência de imagens idealizando a crueldade e violência sobre outros seres. Naquelas sociedades não havia cenas de batalha, nem de conquistadores heróicos arrastando cativos, nem outros indícios de escravidão. Nas escavações das sociedades ágrafas não foram encontrados chefes sepultados com artefatos bélicos, nem depósitos de armas, o que indica uma sociedade pacífica, igualitária, não estratificada.


Segundo John Pfeiffer (apud Eisler) a ideia que a caça dominava a imaginação do homem pré-histórico induziu os arqueólogos a interpretarem as pinturas murais como estando relacionadas à caçada, mesmo quando mostravam pessoas dançando. Sim, as caçadas existiram, porém, nem toda pintura com seres humanos e animais é uma caçada. Muitas pinturas rupestres estão sendo reinterpretadas como sendo dança em rituais sagrados.

Dançando ou caçando? Çatalhöyük. 6.700 aC. Imagem da internet


Embora se saiba que o patriarcalismo é a outra face do monoteísmo, estes dois modelos societários têm registros históricos diferentes. Embora eles tenham surgido há milênios, os dados científicos demonstram que eles podem ter se tornado uma expressão dominante por volta de 2 000 anos aC, fruto das intensas migrações indo-europeias que se difundiram, pelo fio da espada e guerreiros montados a cavalo. Foi o poder do mais forte que levou destruição, dominação, guerra, a cultura da violência.

Embora os mitos dos povos antigos também descrevam o surgimento do universo e de tudo quanto existe, o que prevaleceu no mundo ocidental foi o mito judaico, o que conta a saga dos primeiros patriarcas, sobretudo a do Patriarca Abraão, o Pai das Três maiores religiões monoteístas. Esse mito demarca uma fronteira em relação aos mitos anteriores, onde existiam deuses e deusas, onde o poder tinha que ser partilhado entre o masculino e o feminino, sob risco de o infrator(a) sofrer consequências adversas. No mito judaico o poder do macho é absoluto. No Oriente, mais especificamente na Índia, as ideias patriarcais foram disseminadas através do épico Ramayana, que conta a saga de Rama, o herói civilizatório. {Voltaremos a ele}


Tanto o Antigo Testamento quanto o épico indiano se constituíram em fontes milenares para retratar a história de um povo. No entanto, o avanço da ciência, alavancada pelo avanço tecnológico digital, permitiu que textos, datas, personagens, localidades e um sem número de novas informações fossem comparadas aos textos sagrados. Invariavelmente, o resultado dessas operações sempre trouxe mais dúvidas do que certezas, colocando em xeque os próprios mitos fundadores.


Quando as narrativas do Antigo Testamento sobre Abraão, Jacó, José do Egito e Moisés foram comparadas com o épico hindu Ramayana, saltou aos olhos as “coincidências” entre os nomes dos personagens: Tera, pai de Abraão, muito parecido com Tushratta, rei de Mitani, cujo reino ficava próximo ao Egito e onde eram venerados deuses adorados na Índia. Tushratta se relacionava com o faraó Akhenton, que viveu sua infância e adolescência no Delta do Nilo, de onde governavam os Hicsos e onde se localizava o Templo de Om e onde se venerava o deus único Atom. O Templo de Om é marcante na história de Yuya, o único semita enterrado no Vale dos Reis, o que demonstra sua importância. Os registros sobre Yuya foram comparados aos relatos sobre José do Egito no Antigo Testamento e os resultados são efetivamente perturbadores, viabilizando a hipótese de que um tenha sido o outro. {Voltaremos a essas questões}


E os desafios não param por aí. Os relatos bíblicos sobre Moisés também estão sendo comparados com os dados trazidos pelas descobertas científicas e, pasmem, há indícios de que Moisés pode ter sido o próprio faraó Akhenton depois que caiu em desgraça; ou o oficial Ramose, como pensou Freud; ou o sacerdote Ossarsiph, conforme disseram Maneto e Flávio Josefo, aquele que foi chamado de “leproso”, pois assim eram identificados todos os que se rebelavam contra o sistema religioso vigente; ou Mattiwaza, rei de Mitani, na hipótese de Tertius Chandler. {Voltaremos ao assunto} Ou seja, Moisés pode ter sido qualquer um destes personagens, necessitando apenas que sejam reunidas as provas necessárias para que uma destas teses seja comprovada.


Estes estudos só estão sendo possíveis devido aos avanços da ciência. Enquanto os hieróglifos não passavam de ornamentos das tumbas e dos templos egípcios eles eram apenas apreciados por sua estranha beleza, mas depois que François Champollion conseguiu a chave para traduzi-los, eles saltaram de ornamento para relatos históricos e míticos, passíveis de serem comparados com os tradicionais relatos do Antigo Testamento. Os hieróglifos são parte de um tipo de escrita desenvolvida no Egito antigo, imortalizada em pedra e papiro, que contam os mitos daquela civilização. Mas eles trazem relatos da vida quotidiana e também de muitos eventos que podem ser comparados com os relatos bíblicos, como por exemplo as diversas batalhas travadas pelo Egito com os vizinhos da Palestina e Mitani que também fazem parte dos relatos do Antigo Testamento. Tais estudos comparativos são perturbadores para muita gente nos dias atuais, sobretudo os crédulos, contudo, esses estudos podem trazer uma grande contribuição para o conhecimento de diferentes épocas, civilizações, ritos, crenças e costumes, alargando nossa própria percepção do sagrado.


Para os cientistas que ousam pesquisar temas polêmicos não é tarefa fácil conduzir seus estudos quando estes colocam em xeque as crenças contemporâneas, uma vez que eles esbarram na questão da FÉ. Ter ou não ter fé, crer ou não crer deveria ser algo pessoal, ligado à espiritualidade e às grandes questões da vida: De onde vim, o que faço aqui e para onde vou depois da morte. A busca por respostas pode ou não levar a pessoa ao encontro de uma religião, mais de uma religião ou simplesmente a religião nenhuma. Mas, na prática, o patrulhamento é grande!


Sempre é bom deixar claro que fé e religião são coisas bem diferentes. Religião é a forma institucionalizada de professar uma crença, que pode ser chamada de fé. Contudo, esta pode muito bem existir sem que haja uma instituição como intermediária. Professar uma fé e ao mesmo tempo eleger ou não uma instituição religiosa é escolha de cada um. No entanto, fácil de dizer, difícil de exercitar, sobretudo no meio acadêmico. Quando se trata de diferenciar aquilo que é do âmbito da crença com o que é do âmbito da comprovação científica, não basta apenas comprovar os dados oriundos de pesquisas, sobretudo quando as crenças são usadas para finalidades políticas e econômicas de uma pessoa sobre outra, de um grupo sobre outro, ou de um país sobre outro. Quando apropriada por alguém ou por um grupo, a religião e seus livros sagrados se assemelham a armas de combate, onde o mais forte sairá vencedor. A História está cheia de exemplos.

Religião e Ciência são contendores antigos. Se alargarmos o conceito de ciência para todos os avanços que a humanidade vem acumulando desde tempos imemoriais, pode-se afirmar que religião e ciência são irmãs siamesas. Ao se observar as invenções produzidas pelas primeiras cidades-estados da Suméria vê-se que os inúmeros avanços civilizatórios sempre estiveram relacionados com as divindades cultuadas naquele tempo e lugar. De lá para cá as religiões sempre estiveram amalgamadas com as questões de Estado. Esta situação foi modificada com a Revolução Francesa, que pôs fim ao domínio da religião sobre o Estado. Desde então várias modalidades de relações entre Religião e Ciência foram sendo construídas e testadas. .


O Dr. Denis Alexander, Membro do St Edmund’s College, Cambridge,presidente do Programa de Imunologia Molecular é diretor do Instituto Faraday de Ciência e Religião e editor do periódico Science & Christian Belief. Ele escreveu um artigo muito interessante onde apresenta quatro modelos de relacionamento entre a Ciência e a Religião no mundo contemporâneo. Eis uma síntese:

1. O modelo de conflito: ciência e religião estão em oposição, em um conflito irreconciliável.


2. O modelo Non-Overlapping Magisteria –NOMA {Magisteria não sobrepostos}. Stephen Jay Gould afirmava que a ciência e a religião operam em compartimentos separados, abordando de forma bastante diferente tipos de perguntas e, portanto, não pode haver conflito entre virtualmente diferentes por definição. Além disso, Gould considerou que a ciência trata de questões de fato, enquanto a religião trata de questões de ética, valor e propósito.


3. Modelos de fusão tendem a confundir a distinção entre científico e religioso tipos de conhecimento como um todo, ou tentar utilizar a ciência para construir sistemas religiosos de pensamento, ou vice-versa.

4. O modelo de complementaridade afirma que a ciência e a religião estão abordando a mesma realidade de diferentes perspectivas, fornecendo explicações complementares, que não estão em rivalidade entre si. O modelo também subverte o cenário de oposição em que e as explicações religiosas são consideradas rivais, mas ele pode dar a impressão que a ciência é o reino da verdade e dos fatos objetivos, enquanto a religião é o reino das convicções e valores subjetivos. Assim, aqueles que pensam que o seu conhecimento é o único que importa, devem ampliar sua mentes. Ignorar um polo em favor do outro empobrece a compreensão que se buscasobreo ser humano e a humanidade.


Voltando ao tema do patriarcalismo e sua indissociabilidade do mito judaico da criação, é preciso compreender o significado de Lilith. Nos dias atuais é impossível tratar do Mito de Origem Judaico sem mencionar a Origem do Mito de Lilith. Ela está presente na cena em Eva recebe dela o fruto proibido e o entrega a Adão, o que resulta na expulsão de ambos do Paraíso. Lilith aparece em forma de serpente, não aquela que simboliza a sabedoria, mas na versão víbora, símbolo de todo o mal, aquela que induziu Eva ao crime de desobediência a Deus, que havia interditado comer o fruto da Árvore do Bem e do Mal, ou da Árvore do Conhecimento, simbolizada na maçã.


Michelangelo. Capela Sistina – Wikimedia Commons



Por causa de sua desobediência, a culpa pelo pecado original foi imputada a Eva, mais do que a Adão, que foi induzido por ela ao pecado, cuja consequência foi a maldição do céu, não só para si, mas para os seus filhos, para a sua raça, para a Humanidade inteira, Este pecado está na origem do mal, que resultou na expulsão do Paraíso e na consequente perda do Estado de Graça, uma herança deixada para toda humanidade.


O pecado original é um conceito da teologia católica e fundamenta a necessidade do batismo, única maneira de voltar ao estado de graça.O conceito de pecado original foi desenvolvido por Santo Agostinho em sua obra “Confissões” no terceiro século, em resposta ao problema da origem do mal, um tema em debate na Igreja da época.


Segundo Agostinho, o casal primitivo não teria sucumbido se Satã não tivesse semeado em seus sentidos “a raiz do mal”. O pecado lhes afetou a inteligência e a vontade, além das afeições e dos desejos, inclusive o sexual, um vício que domina o ser e provoca a desordem moral em homens e mulheres. Agostinho foi maniqueísta, uma doutrina que diz que o pecado original era a sede dos "apetites carnais", dos “vícios”.

A compreensão de Agostinho sobre as consequências do pecado original e da necessidade da graça redentora se desenvolveu principalmente durante a controvérsia contra Pelágio, um monge britânico, que se recusava a concordar que a libido teria ferido a mente e a vontade, insistindo que a natureza humana recebeu o poder de agir, falar e pensar quando Deus a criou; ela não poderia perder sua capacidade moral de fazer o bem, mas as pessoas são livres para agir ou não de maneira justa. Em sua defesa, Pelágio lançou mão do exemplo dos olhos: eles tem a capacidade de enxergar, mas a pessoa pode fazer disto bom ou mau uso. Já Agostinho argumentava que, a desobediência da carne frente ao espírito resultou em uma das consequências do pecado original, a punição de Adão e Eva. Negar o pecado original é negar a salvação de Cristo. Tendo liberdade, o homem não consegue salvar-se sozinho e fica reduzido à própria escolha. Para Agostinho, o mal entra no mundo por causa da desobediência de Adão a Deus e depois transmite-se pela sexualidade. A natureza humana é pecadora desde seu nascimento. Só o batismo é a indispensável condição de uma regeneração que permite escapar ao suplício da morte eterna, que apaga a culpabilidade iniciada pela desobediência de Adão e Eva, diz Agostinho.


Desde Agostinho, o cristianismo considera toda a humanidade como condenada ao Inferno pelo pecado de Adão, do qual nunca será purificada, exceto através do batismo, pelo qual os cristãos “renascem” no mundo, só que desta vez livres do pecado.


A teóloga alemã Uta Ranke-Heinemann se contrapõe às teses agostinianas. Para ela, foi Agostinho quem concebeu um Deus déspota, inaugurando uma lógica de medo e de terror para melhor impressionar as almas, tendo sido o promotor desta moral que identifica o sexo com o pecado.


Para Jean Delumeau em O Pecado e o Medo no Ocidente, a ideia de pecado foi associada ao medo, a fim de valorizar o resgate que só a Igreja poderá manipular. O medo de arder no inferno foi usado no passado com dupla finalidade, garantir a obediência dos fiéis à Santa Madre Igreja, e incutir-lhes a obediência ao Rei, da qual a monarquia não podia prescindir e à qual a Igreja estava aliada. No presente, o medo ainda prospera entre católicos e protestantes, o medo de não ser eleito para ficar à direita do Pai depois da morte.

Embora compartilhem da mesma fonte, o judaísmo e o islamismo não acreditam no Pecado Original. O Judaísmo considera o pecado a violação de um mandamento divino, e não um estado do ser. De acordo com a Enciclopédia Judaica, “O Homem é responsável por seus atos e pelo pecado, pois é dotado de uma vontade livre”; contudo, o homem tem uma natureza fraca e uma tendência para o Mal: “Pois o coração do Homem é mau desde a sua juventude” (Gen,8,21; Por isso, Deus na sua misericórdia permitiu ao Homem arrepender-se e ser perdoado. O Judaísmo defende que todo ser humano nasce do pecado, mas não com o pecado, conforme o Salmo 51:5 “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.” E para a remissão do pecado existe a doutrina da expiação, um conceito de misericórdia baseado no uso simbólico do sacrifício de animais. O sangue de um animal era derramado no altar como “resgate” dos pecados cometidos contra a Lei de Deus.


Para o islamismo, (…) Nenhuma alma receberá outra recompensa que não for a merecida, e nenhum pecador arcará com culpas alheias...” (Alcorão 6:164)


Embora não creiam no pecado original, tanto o judaísmo quanto o islamismo se apoiam no mito abraâmico da criação para justificar os conceitos de pureza/impureza, fonte de inúmeros preconceitos que recaem sobre a mulher judia e muçulmana. Sendo a mulher, a principal responsável pela expulsão do paraíso, ela é a fonte de pecado para o homem, pois este não consegue dominar seu próprio desejo. Sendo a fonte do mal, a mulher foi marcada mensalmente pela sua própria impureza e condenada a parir com dor. O fluxo menstrual é considerado pelos hebreus e pelos muçulmanos uma forma de mácula, que exige rituais de purificação, tanto para ela quanto para aqueles que são por ela tocados e contaminados. Judeus e muçulmanos não cumprimentam com aperto de mão uma mulher desconhecida, pois ela poderá estar menstruada e, sem saber, ele estaria se contaminando, situação que exigiria o cumprimento dos rituais de purificação. Os muçulmanos se apoiam na noção de “evitar o pecado” {deles} para exigir que as mulheres andem totalmente cobertas.

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Cada cultura tem seu mito de criação, porém, não é fácil traçar a evolução dos mitos e menos ainda localizar a origem deles, mas, algumas pistas ajudam a entender o contexto em que eles apareceram.


Lilith, a mulher-serpente, faz parte do mito de criação judaico-cristão. Sua imagem vem sendo plasmada em pedra desde a construção das primeiras catedrais góticas. Contudo, entre o final do século 19 e início do século 20, após as descobertas dos sítios arqueológicos na atual Turquia, antiga Mesopotâmia e Babilônia, onde foram encontrados milhares de tabletes de argila gravados em escrita cuneiforme e posteriormente decifrados, é que foi feita a ligação entre a mulher-serpente bíblica e a mulher-demônio mesopotâmica, cuja associação ainda não foi amplamente aceita.


Lilith ressurge na era moderna dentro do contexto revolucionário dos anos 1950-1960. Os Estados Unidos da América deram início à Guerra do Vietnã em 1955, que durou 20 anos, provocando em sua própria sociedade uma forte onda de contestação, sobretudo entre os jovens.Esta rebeldia americana repercutiu no chamado “Maio de 1968” ocorrido na França, movimento cultural marcado por greves gerais, ocupações estudantis e manifestações feministas que tornaram-se ícone de uma época de renovação de valores, que certamente reverberou no ano seguinte em um dos maiores festivais de rock da história, Woodstock, nos Estados Unidos, em 1969. Este foi o cenário para o aparecimento de Lilith na era moderna, em dois artigos não-acadêmicos nos anos 1970, 1971.


A falecida professora Sylvia Ostrowetsky, da Universidade de Amiens, na França, era judia de origem polonesa, que vivia em Paris desde sua fuga da Polônia durante a perseguição nazista. Em 1988, em uma de suas aulas, ela contou o seguinte: Depois do fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, os judeus norte-americanos resolveram reescrever a Torá e os Midrashs {comentários} nas línguas dos países onde houve intensa perseguição aos judeus pelos nazistas, pois quem possuísse esses livros corria o risco de ir para um campo de extermínio, razão pela qual foram destruídos. Como a comunidade judaica norte-americana era ampla e abastada, originária de vários países, inclusive daqueles mais perseguidos pelos nazistas, resolveram assumir a tarefa de verter as Escrituras para os idiomas nativos. Ocorre que não havia homens suficientes para empreender a grandiosa tarefa de tradução para diferentes idiomas.


Na ritualística judaica, a mulher está impedida de tocar nos textos sagrados. Além disso, o trabalho de copista é considerado um ofício sagrado, pois não se pode mudar uma vírgula sequer, e as mulheres não eram consideradas confiáveis para fazê-lo. Porém, como em situação de guerra ou de extrema necessidade as mulheres são convocadas a assumir postos exclusivamente masculinos, os judeus norte-americanos resolveram lançar mão das mulheres judias norte-americanas para efetivarem tal empreendimento, o de traduzir as Escritura. A grande surpresa é que ao desempenharam tão nobre tarefa elas se depararam com narrativas e personagens que desconheciam. E Lilith foi uma delas. E elas não se calaram.


Suas descobertas repercutiram e dois artigos:The Unfreedom of Jewish Women {A falta de liberdade das mulheres judias} escrito por Trude Weiss Rosmarin e publicado em 1970 em uma revista da comunidade judaica, no qual critica o tratamento das mulheres na lei judaica, e um outro artigo chamado The Jew Who Wasn't There: Halacha and the Jewish Woman {O judeu que não estava lá: Halachá e a mulher judia}, de Rachel Adler, publicado em 1971, igualmente em uma revista da comunidade judaica. A partir do cenário de contra-cultura da época, os dois artigos publicados em revistas não-científicas caíram como uma bomba incendiária no meio acadêmico, transformando Lílith em ícone do feminismo e inaugurando os estudos de gênero nas universidades.


Ostrowetsky também salientava em suas aulas que entre Lilith e Eva o Criador havia feito uma outra experiência, da qual havia nascido uma mulher sem nome. Deus a criara aos olhos de Adão, que a teria visto desde as vísceras, o que havia provocado nele grande repugnância. Esta teria sido a razão de o Criador ter feito Adão permanecer adormecido por longo tempo antes de criar uma outra mulher em sua terceira tentativa. No manuscrito Ben-Sira, a rebeldia de Lilith se expressa pela recusa da posição por baixo no ato sexual e diz a Adão que é sua igual. Como este continua lhe exigindo que se posicione por baixo, ela fica enfurecida, invoca o nome do Criador, que não podia ser pronunciado, e, não tendo sido atendida em sua reclamação, Lilith se afasta, voa para os confins do Paraíso sendo transformada em demônio feminino.


R. Jehudah em nome do Rabi disse: No princípio a criou, mas quando o homem a viu cheia de saliva e sangue afastou-se dela. Então o criador tornou a criá-la.


A versão da existência da criação de uma mulher sem nome também é referenciada por Roberto Sicuteri em seu livro Lilith A Lua Negra {p. 142}


Judith Plaskow, foi a primeira teóloga feminista judia a se reunir com colegas no início dos anos 1970 para ler e reinterpretar os textos sagrados de sua religião. Sem abandonar o judaísmo, o grupo de Plaskow usou a tradição para modernizá-lo. Pela primeira vez os intérpretes eram mulheres, não homens. Juntas, elas decidiram narrar o mito de Lilith a partir da perspectiva feminina.


Na tradição judaica, Lilith aparece em um compêndio de comentários anônimos conhecido como Alfabeto de Ben-Sira, escrito em torno de 800 dC. Trata-se de um texto judaico satírico que zombava de figuras bíblicas e incorporava elementos do folclore popular,ondeo hipotético narrador Ben Sira conta a história de Lilith para Nabucodonosor II, que reinou entre 605-562 aC, na Babilônia. Segundo o manuscrito, Lilith existiu antes de Eva, sendo a primeira mulher de Adão.Lilith foi criadacom a mesma matéria prima de Adão, porém, imediatamente após sua criação, eles começaram a brigar. O motivo é que Liliths e recusava a ficar por baixo de Adão durante as relações sexuais.


Iluminura. Livro das Horas de Jean de Montauban, 1430 – Domínio Público


- Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo suportar o peso do teu corpo? Por que devo ser dominada por ti se eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual?

Adão retrucou:

- Eu não vou me deitar abaixo de você, pois esta é a Lei.


Sem ser atendida por Adão, Lilith então volta-se para o Criador e reclama de sua condição. E Deus retrucou que essa era a ordem natural, o domínio do homem sobre a mulher. Exasperada, Lilith pronuncia o nome do Inefável, ato que era proibido, e foge para os confins do Paraíso. Vendo-se sozinho, Adão implora ao Criador:

- Soberano do universo! A mulher que você me deu, fugiu!


Atendendo às súplicas de Adão, Deus enviou três anjos Sanvi, Sansavi e Samangelaf {encontrados com diferentes grafias} para trazê-la de volta. Os anjos insistiram muitas vezes e, diante de sua resistência, a ameaçaram. Disseram que o Criador a transformaria em um demônio. Mesmo diante das ameaças Lilith se recusava a voltar. Diante de mais uma desobediência, Lilith foi condenada pelo Criadora perder cem filhos por dia. Mas esta não é a única versão da criação.


No Antigo Testamento é dito:

Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; e da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Gênesis 2:21-23 {grifo nosso}


Não há explicação para o fato de ter o Criador colocado Adão para dormir um “sono pesado”. Teria sido para esquecer o que havia se passado com Lilith? E o texto bíblico ressalta que “ agora” esta mulher é osso dos meus ossos. Teria sido indicativo de que houve uma criatura “antes”, cujo relacionamento com Adão não deu certo? O próprio texto bíblico diz:


E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Homem e mulher os criou; e os abençoou e chamou o seu nome Adão, no dia em que foram criados. Gn 1:27 e Gn 5:2{grifo nosso}


E Ben-Sira continua, disfarçada em serpente, Lilith voltou ao Paraíso e, vendo Eva, entende que foi simplesmente substituída por outra. Ela ficou possessa! Louca de raiva ela arquitetou sua vingança. Aproximando-se de Eva ela lhe explica o significado da proibição da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, induzindo-a a experimentar o fruto proibido. Eva experimentou e o deu a Adão.


Relevo de 1220-1230 no portal direito da fachada oeste da Catedral de Amiens, França. Wikimedia Commons

Outra versão diz que Lilith juntou-se aos anjos caídos quando uniu-se a Satanás, chamado Samael, ou Asmodeus. Dizem as lendas que Lilith e o demônio procriaram incontáveis descendentes, responsáveis por espalhar o caos pelo mundo.


Demonizada, Lilith passou a perseguir os homens, aparecendo-lhes em sonhos, mas seus ataques se voltavam principalmente contra os recém-nascidos, para se vingar. Desde então, para proteger os bebês seria necessário colocar amuletos com o nome dos três anjos, aqueles que a perseguiram.


As vasilhas de cerâmica eram outro tipo de amuleto. Elas eram enterradas de boca para baixo na entrada das casas e serviam para aprisionar Lilith em seu interior, proteger o bebê recém-nascido e impedir que o marido fossem seduzido por ela.


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Tigela dos séculos 5 a 6 apresenta um texto de encantamento em judaico-aramaico e uma imagem do demônio Lilith. https://ihow.pro/pt/p/a-historia-de-lilith-de-demonio-a-primeira-esposa-de-adam-e-icone-feminista/TgVWt1w_YU7i8_yuw_pHhA

PARA SABER MAIS


Uma coisa fascinante sobre as tigelas de encantamento é que elas trazem os nomes dos anjos Senoy, Sansenoy e Semangelof, os mesmos que admoestaram Lilith a voltar para Adão. Uma teoria é que a repetição onomatopaica dos nomes com “s” pode ter soado como o silvo de uma cobra, símbolo de Lilith. Tais tigelas de encantamento podem ser comparadas com a prática judaica tradicional de prender uma mezuzá no batente da porta de uma casa para bloquear a entrada de qualquer mal.


Outros amuletos de proteção são o que hoje chamamos de “medalhinhas”. Foi encontrado na Palestina e na Síria, datados de 1.500 aC, um conjunto de artefatos, pequenas joias em ouro, cujos motivos reproduzem o corpo feminino e, certamente, farão corar fundamentalistas e/ou puritanos.


Tell el-Ajjul, Palestine, ca 1600-1500 BCE. H 3.5 cm


Minet el-Beida (Ugarit), Syrian coast. 14/13th C BCE.


Estes pingentes representam o corpo feminino, talvez de uma deusa, com grande evidência de suas partes íntimas. Tais artefatos poderiam ser usados no pescoço, porém o mais provável é que estivessem presos aos cintos em torno da cintura. O significado de tais amuletos ainda não está claro, contudo, o fato de servirem de proteção, indicam que havia forte crença no poder de forças maléficas.


No modelo hebraico de demônio, Lilith era a versão feminina, também chamada Súcubos, que são demônios femininos que atacam os homens durante seus sonhos, enquanto íncubos fazem o contrário. Todos os comentários rabínicos, assim como os contos populares judaicos, retratavam Lilith como uma mulher transgressora, amaldiçoada por sua rebeldia. Sendo Lilith incapaz de ter seus próprios filhos, ela seduzia os homens durante o sono, a fim de se apropriar de seu sêmem, antiga explicação para a polução noturna. É possível que a demonização de Lilith tenha criado a explicação necessária para justificar atos considerados impuros.


Não é difícil perceber que Lilith foi um bode expiatório. Uma mulher poderosa, rebelde, exigente, sexualmente ativa e afirmativa, características de impropriedade sexual pelos padrões puritanos judaico-cristãos. Eva é o oposto de Lilith. Eva é submissa. Diferente de Lilith, Eva não foi criada do barro, mas de uma costela. Eva foi modelada a partir da costela de Adão para garantir sua dupla obediência, a ele e ao Criador. A ausência feminina no mito de criação judaico-cristão leva a crer que este mito emergiu numa época em que a mulher estava perdendo todos os direitos que eram dela desde o paleolítico, sendo expurgada até mesmo daquela que é sua maior característica, a maternidade.





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