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9 - José do Egito foi Yuya, o estranho enterrado no Vale dos Reis no Egito?

Atualizado: 29 de jan. de 2022



José do Egito, filho de Jacó, que era filho de Isaque, que por sua vez era filho de Abraão, depois de ter sido vendido pelos seus irmãos, foi falsamente acusado de adultério e jogado numa prisão egípcia. Por possuir a mente sensível, decifrou um sonho do faraó {possivelmente Apopi I da 15ª Dinastia}, fato que sensibilizou de tal forma o governante que veio a torná-lo vizir do Egito. Como na época uma das formas de introduzir uma pessoa na corte era através de um casamento dinástico, José recebeu em casamento uma egípcia de alta estirpe, chamada Asenath, filha de Potifar, sacerdote da cidade de Om, também chamada de Heliópolis.


Heliópolis é a forma latinizada que significa “Cidade do Sol”. Hélios, é a forma personificada e deificada do Sol para os gregos, que chamaram a cidade onde o Sol era venerado pelos egípcios através dos deuses Rá e Atum, cujo culto principal estava localizado na cidade de I͗wnw, que significa “Os Pilares”. Na transliteração, essa palavra soava como “Iunu” ou Om, como ficou conhecida.


Pouco se sabia sobre a cidade e o templo de Om, contudo, estudos recentes das Cartas de Amarna comprovam as ligações estreitas entre o reino de Mitanni e suas concepções védicas, com o delta do Nilo. Este local foi palco das “invasões dos Hicsos”, também chamados de “Reis Pastores”. Comprovadas todas essas ligações, hoje se levantam hipóteses de que as crenças religiosas no Egito por volta de 1.500 aC talvez tivessem uma ligação ainda maior com as concepções védicas do que se poderia imaginar, levando a crer que a palavra “Om” relacionada ao Sol tenha se originado do conceito védico de Deus, que também é Om.

É interessante que a palavra sânscrita Om é escrita como AUM, fazendo com que a palavra ATUM usada pelas primeiras dinastias do Egito para se referir ao deus solar, fosse apenas a transliteração de AUM, pronunciada como OM, que também significa deus. Na concepção védica,


A representa Brahma, o criador;

U representa Vishnu, o conservador;

M representa Shiva, o destruidor {que destrói o velho para que possa nascer o novo}


OM é a vocalização conjunta dessas três letras, sendo considerado o som primordial. Acredita-se que antes da criação da matéria só havia esse som que, portanto, contém todas as energias primevas que permitiram a formação do universo.


ATUM pode ter sido a forma que os egípcios antigos encontraram para dizer AUM. Esta questão é muito importante, pois o Templo Solar de Om, que ficava em Heliópolis, terá papel fundamental na vida de José do Egito.


Heliópolis foi uma das cidades mais antigas do Egito, ocupada desde o período pré- dinástico, que aparece nos Textos da Pirâmide {datam de 4500 aC anos ou mais}, como a “Casa de Rá”. Por apresentarem uma síntese das crenças religiosas do Antigo Egito, os Textos das Pirâmides revelam os mais antigos conceitos sobre Deus. Atum-Rá foi o primeiro ser auto criado que surgiu das águas primevas. Essa crença milenar apresentou declínio durante a 5ª Dinastia quando surgiu o conceito de Eneade, um conjunto de nove divindades principais, eclipsando o conceito de divindade única caindo em desuso. Entretanto, o conceito de unicidade de Atum-Rá, a divindade solar, foi retomado por Akhenaton durante a 18ª Dinastia, que introduziu o culto a Aton, o disco solar, inaugurando o monoteísmo egípcio.


Heliópolis floresceu como um centro de aprendizagem durante o período grego no Egito. As escolas de filosofia e astronomia teriam sido frequentadas por Homero, Pitágoras, Platão, Sólon e outros filósofos gregos. Com a decadência das cidades no delta do Nilo, o Templo de Om e a própria cidade também entraram em declínio. Na verdade, no século I aC Estrabão encontrou os templos desertos e a cidade quase desabitada, embora alguns sacerdotes ainda estivessem presentes.


Durante a Idade Média, o crescimento da cidade do Cairo, a poucos quilômetros da antiga Heliópolis, fez com que as ruínas fossem vasculhadas em busca de materiais de construção. Contudo alguns blocos de granito com o nome de Ramsés II ainda permaneceram, bem como as fundações do grande Templo de Atum-Rá ainda podem ser vistas, bem como o obelisco de Al-Masalla.

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Heliopolis_(ancient_Egypt)


Um dos autores contemporâneos que mais tem utilizado o método comparativo para analisar os diferentes textos religiosos tradicionais em confronto com os textos cuneiformes, recentemente traduzidos, é Ahmed Osman (1934). Sendo um jornalista investigativo, Osman analisa e comparou os personagens egípcios e hebreus e demonstrando que Yuya, Vizir e Comandante da Cavalaria nos reinados de Tutmosis IV e de Amenhotep III, foi José, décimo primeiro filho de Jacó, filho de Isaque e bisneto de Abraão. José é tão importante que sua história ocupa vinte e cinco capítulos do Gênesis. Obviamente, suas afirmações foram muito contestadas tanto pelos acadêmicos como pelos teólogos.


Múmias de Yuya e sua esposa Tuyu. http://www.danel.com.hr/Yuya.html


Os estudos realizados nas múmias encontradas na tumba KV46 mostram que Yuya foi um homem mais alto do que a média encontrada na população do Egito daquele tempo. Levando em conta o seu nome incomum e suas feições, o Dicionário Biográfico do Antigo Egito sugere uma origem estrangeira. O nome Yuya, é escrito com um hieroglifo de uma folha de junco com um pé andando, o que pode sugerir que seus ancestrais tivessem origem estrangeira. É concebível que ele tivesse alguma ascendência mitaniana, visto que se sabe que o conhecimento sobre cavalos e carruagem foi introduzido no Egito a partir das terras do norte e Yuya era o “Mestre do Cavalo” e “Comandante da Cavalaria” do faraó.


Mitani foi um reino com ligações comprovadamente védicas. Este argumento é bastante sólido, uma vez que a tecnologia do uso de cavalos e bigas para a guerra foi introduzida no Egito vinda da Asia Menor {onde hoje é a Turquia}. A antiga Anatólia, também chamada de Ásia Menor, foi reconhecidamente importante nas migrações indo-arianas ou indo-iranianas.


É bastante provável que Yuya fosse um descendente da realeza de Mitani. Yuya era casado com Tuyu, uma nobre egípcia associada à família real, que ocupou altos cargos nas hierarquias governamentais e religiosas. A filha de ambos, Tiye, tornou-se a Grande Esposa Real de Amenhotep III. Yuya e Tuyu também tiveram um filho chamado Anen, agraciado com os títulos de “Chanceler do Baixo Egito”, ou seja da região do delta do Nilo. Eles também podem ter sido os pais de Ay, que viria a ser faraó, após o reinado de Tutankhamon, embora esta hipótese não seja conclusiva.


No entanto, o mais intrigante é que Yuya e sua esposa foram enterrados numa tumba particular no Vale dos Reis em Tebas, local destinado unicamente aos faraós uma vez que não foi encontrada nenhuma tumba que não estivesse dentro deste parâmetro. A tumba de Yuya e Tuyu, KV46, foi descoberta em 1905 por James Quibell, (1867-1935), egiptólogo britânico que também descobriu a famosa Paleta de Narmer em 1898, tendo sido diretor do Museu Egípcio entre 1914 e 1923. A múmia de Yuya foi examinada pela primeira vez pelo anatomista australiano Grafton Elliot Smith. Ele descobriu que o corpo de Yuya era de um homem idoso, com 1,65 metros de altura, suas orelhas não estavam furadas como era costume na realeza egípcia. Os braços estavam dobrados com as mãos colocadas sob o queixo, como se estivesse em prece, uma posição completamente diferente da habitualmente encontrada.

http://theancientneareast.com/649-2/




Os membros da realeza que não pertenciam à família real eram mumificados com as mãos paralelas ao corpo, porém uma múmia real, sobretudo o faraó, tinha os braços cruzados sobre o peito. Assim como o sinal da cruz é usado pelos católicos para abençoar, o gesto dos braços cruzados sobre o peito era usado pelos egípcios para abençoar. Benção em egípcio é BARAKA: Que a divindade RA abençoe seu BA e seu KA, ou seja, que Deus abençoe seu corpo e sua alma. Este termo deu origem a "Baruck" o "abençoado" em hebraico. O nome Barack tem a mesma origem.


Este gesto indicava também a filiação divina daquele que portava as insígnias reais, o heqa, um pequeno bastão com uma das extremidades em gancho que os pastores usavam para recapturar as ovelhas fugitivas, prendendo-as pelas patas. E o mangal de malhar grãos, que indicava o poder do faraó sobre toda a produção do reino.



No entanto, Yuya foi mumificado com as mãos sob o queixo, posição única, jamais encontrada em outra múmia até agora. Os estudiosos ainda não conseguiram decifrar a simbologia desse gesto, no entanto ele é muito significativo, uma vez que sugere uma filiação religiosa diferente da vigente no Egito, sobretudo quando se relaciona este gesto ao título concedido a Yuya: “Pai de Deus do Senhor das Duas Terras”.


https://www.ancient-origins.net/ancient-places-africa/magnificent-tomb-and-treasures-forgotten-couple-yuya-and-tuya-006683



http://www.danel.com.hr/Yuya.html


De todas as peças encontradas na tumba, a carruagem intacta foi o melhor objeto remanescente. A decoração da carruagem ainda preservada constava de espirais e rosetas em gesso dourado. Mais descobertas consistiram em uma caixa de jóias adornada com azulejos de marfim, ébano e faiança com o nome de Amenhotep III e Tiye, genro e filha de Yuya e Tuya.

https://sergeykaldovphotography.photo.blog/2020/01/21/the-tomb-of-yuya-and-tuya/


Ahmed Osman, em seu livro Um estranho no Vale dos Reis, lançou a hipótese de Yuya ter sido José do Egito. É óbvio que esta teoria não foi aceita na egiptologia convencional. Donald B. Redford escreveu uma crítica mordaz para a Biblical Archaeology Review. Da mesma forma, Deborah Sweeney expressou grande dúvida em relação à hipótese proposta. Deborah Sweeney afirma que “Pai de Deus do Senhor das Duas Terras” é uma extensão do título “Pai de Deus”, que não é exclusivo de Yuya.


Apesar das críticas contundentes, Osman continuou publicando, demonstrando conexões ainda mais surpreendentes entre a história dos Patriarcas Hebreus e a História Egípcia. Até hoje, partidários e críticos permanecem entrincheirados em seus argumentos. Talvez leve uma geração inteira para que sua tese possa ser comprovada e finalmente aceita. Enquanto a comprovação não chega, vamos ver a relação que Ahmed Osman estabelece entre Yuya e José do Egito.


Para Osman, a raiz do nome Yuya é ‘yw’ significa ‘folha de junco’ no idioma do egípcio antigo. O nome ‘José’ em hebraico também compartilha uma raiz que significa junco. A presença de “Ya”, um apêndice comum em nomes hebraicos para denotar o nome de Deus, torna essa comparação ainda mais interessante.


Segundo o relato bíblico José armazenou alimentos durante os sete anos de abundância, mapeando a estratégia para sobreviver nos anos de fome. Com isso, ele conseguiu que o Egito fosse o império mais rico do planeta, transformando o que deveria ter sido sete anos de dificuldades em anos de imensa prosperidade. Sem dúvida, tal pessoa certamente seria imortalizada na história do Egito como um de seus maiores líderes, no entanto, não há traço de José nos arquivos egípcios.


Quanto a Yuya, foi encontrada em sua tumba uma extensa lista de seus títulos. Ele era um ‘General da Carruagem’ e ‘Mestre do cavalo’. Ambos os títulos demonstram que havia um pelotão de carruagens dentro do exército egípcio. O desenvolvimento de um ramo do exército dedicado a carruagens foi uma ocorrência relativamente nova no Egito e provavelmente tenha começado durante o combate travado pelos faraós de Tebas contra os hicsos. Mostrando a importância dos títulos militares concedidos a Yuya foi a carruagem de guerra encontrada entre os bens de Yuya em sua tumba. Em Gênesis 41:43 é dito que José recebeu uma segunda carruagem do faraó, indicando que estes dois personagens podem ser apenas um, diz Osman


A descrição de ‘Pai do Deus’ é semelhante à descrição de José como Avrekh, termo que é a contração de av, “pai” e rikha, “rei”, em outras palavras, José foi chamado ‘Pai do faraó’, ‘Pai do Pai’, ou ‘Pai do Deus’, pois o faraó era o representante do deus na terra.


E continua Osman, esse título enigmático ‘Pai do Deus’ dado a Yuya foi tão importante que passou para seu filho Ay, como título real, quando este se tornou o faraó que sucedeu Horenheb, que por sua vez havia sucedido Tutankhamon. Este título foi exclusivamente usado no final da 18ª Dinastia e muitos autores acreditam que ele pode ser equivalente à palavra Patriarca.


Em Gênesis 15: 18-21 é dito que a Terra Prometida à Abraão se estende do Nilo até o Eufrates e descreve o mesmo território que um escaravelho atribuído a Amenhotep III, que menciona Tiye, sua esposa, os pais dela Yuya e Tuyu, e definem os limites do império, desde o Sudão central até o norte da Mesopotâmia, estabelecendo detalhes que apontam para uma conexão entre os Patriarcas e a 18ª Dinastia do Egito.


Quando José foi vendido, quem o comprou foi um militar, cujo título era Capitão da Guarda do faraó, chamado Potifar. No Gênesis, a esposa de Potifar não recebe nenhum nome, mas em fontes judaicas medievais posteriores e na tradição islâmica, ela é identificada como Zuleikha. Os comentaristas islâmicos das escrituras consideram Zuleikha uma pecadora e vilã, entretanto, os grandes poetas místicos muçulmanos Rumi, Hafiz e Jami têm outra opinião. Para Rumi, a obsessão de Zuleikha por José é um sintoma e uma manifestação do grande e profundo desejo da alma por Deus, por isso, insiste ele, é tão verdadeiro esse amor, como de qualquer pessoa por outra. Nunca se saberá se Zuleikha esteve apaixonada por José, de forma platônica ou não, mas o que ficou registrado é que, por causa de uma calúnia, ele teve amargar anos na prisão.


José possuia muita sensibilidade intuitiva para interpretar os sonhos de seus companheiros de cárcere, suas habilidades chegaram aos ouvidos do faraó, que também teve um sonho seu interpretado por ele. A Bíblia descreve como José subiu ao poder no Egito por decifrar a bizarra sequência de pesadelos do faraó, que nenhum de seus adivinhos conseguia interpretar. O faraó foi informado de que um jovem hebreu que estava na prisão tinha capacidade de interpretar sonhos. Chamado, José deu sua interpretação e além disso, ofereceu soluções para os problemas que os sonhos do faraó apresentavam. Impressionado com a inteligência e sensibilidade do jovem, o faraó nomeou José para ocupar o cargo de Vizir do Egito, o que seria o equivalente de Primeiro Ministro.


Depois disse o Faraó a José: Pois que Deus te fez saber tudo isto, ninguém há tão entendido e sábio como tu. Tu estarás sobre a minha casa, e por tua boca se governará todo o meu povo, somente no trono eu serei maior que tu. Disse mais o Faraó a José: Vês aqui que te tenho posto sobre toda a terra do Egito. E tirou o Faraó o anel da sua mão, e o pôs na mão de José, e o fez vestir de roupas de linho fino, e pôs um colar de ouro no seu pescoço. (Gênesis 41: 39-42)


É amplamente aceito que Yuya foi Vizir de Tutmoses IV, que reinou em torno de 1400 aC. A múmia de Yuya foi encontrada com uma corrente de contas de ouro e lápis-lazúli que havia caído atrás de sua cabeça, fato que corrobora a hipótese de Yuya ter sido José do Egito. Em Gênesis 41:42 José explica que ele recebeu uma corrente de ouro e um anel do faraó, presumidamente com um selo real, e também uma esposa.


O faraó chamou a José de Zafenate-Panéia, e deu-lhe por mulher Asenath, filha de Potifar, sacerdote de Om.(Gn 41: 45)


É muito estranho que o faraó tenha dado como esposa justamente a filha de Potifar, aquele que colocou José no cárcere. Essa narrativa parece muito mal contada.


E nasceram a José dois filhos, que lhe deu Asenath, filha de Potifar, sacerdote de Om. E chamou José ao primogênito Manassés, porque disse: Deus me fez esquecer de todo o meu trabalho, e de toda a casa de meu pai. E ao segundo chamou Efraim; porque disse: Deus me fez crescer na terra da minha aflição. (Gn 41:50-52)


Yuya também teve dois filhos, Anen, que foi o sumo sacerdote do Deus-Sol em Yunu, e Ay, provavelmente aquele que tornou-se faraó (1352-1338 aC) depois da morte de Tutankhamon e Horenheb. Ocorre que estes nomes, diz Osman, são de raiz egípcia, Manassés (Amon) e Efrain (Ay), mais uma vez corroborando a hipótese de que Yuya e José podem ter sido a mesma pessoa.


Por outro lado, Yuya teve várias filhas e José nenhuma.


Segundo Ahmed Osman, os escribas responsáveis por redigir a Torá suprimiram as filhas de José exatamente porque uma delas ‘Tiye’ havia se tornado rainha, a Esposa Principal do faraó Amenhotep III e mãe de Akhenaton.


Contudo, se Akhenaton e Moisés tivessem sido a mesma pessoa, outra hipótese de Ahmed Osman, Moisés não poderia ser retratado como filho da rainha do Egito, razão pela qual foi necessário arranjar duas mães para ele. Sendo Moisés um príncipe que se tornou faraó, sua história seria completamente inaceitável para a narrativa rabínica. Isso pode explicar a razão de Tiye ter sido suprimida como filha de José, tendo sido toda a narrativa censurada e rearranjada. Teria sido impossível explicar que Moisés, o grande Patriarca e Legislador dos Judeus, na verdade foi Akhenaton, filho de Tiye, que por sua vez era filha de Yuya, que na verdade era José do Egito. Como explicar que o maior líder dos judeus na verdade era filho legítimo da rainha do Egito? Os escribas então resolveram o problema criando duas figuras maternas para Moisés, uma mãe hebraica que lhe deu à luz, e outra mãe pertencente à casa real que o adotou e o criou como filho, diz o autor.


Osman explica ainda que a referência à ‘princesa’, filha do faraó, que teria adotado Moisés, levou os tradutores desavisados a cometer um erro. Ocorre que a palavra ‘filha’ e a palavra ‘casa’ tinham a mesma grafia ‘b-t’ no hebreu antigo. Assim, Moisés foi ‘adotado’ pela ‘casa’ do faraó e não necessariamente por uma ‘filha’ do faraó.


Ahmed Osman retoma Gênesis 50 para explicar que Jacó, pai de José, expressou o desejo de ser enterrado em Canaã, usando a palavra hebraica b-y-t-phar, que significa “Casa do faraó”. Ocorre que a palavra ‘faraó’ significa literalmente “a grande casa”. Então, b-y-t-phar significa “a casa da grande casa”, que no sentido egípcio seria o mesmo que ‘rainha’, ou ‘esposa principal do faraó’.


Passados, pois, os dias de seu choro, falou José à casa de Faraó, dizendo: Se agora tenho achado graça aos vossos olhos, rogo-vos que faleis aos ouvidos de Faraó, dizendo: Meu pai me fez jurar, dizendo: Eis que eu morro; em meu sepulcro, que cavei para mim na terra de Canaã, ali me sepultarás. Agora, pois, te peço, que eu suba, para que sepulte a meu pai; então voltarei. E Faraó disse: Sobe, e sepulta a teu pai como ele te fez jurar. (Gn 50:4-6)



Tiye Wikimedia commons


Tiye era a "Casa do faraó", ou seja, a rainha e Esposa Principal. Osman defende que a ‘rainha’, no relato bíblico, era Tiye, sua própria filha, cuja intervenção José/Yuya, pai dela, procurou na questão do sepultamento de Jacó, pai de José e avô dela própria.


José {Yuya} atirou-se sobre seu pai, chorou sobre ele e o beijou. Em seguida, deu ordens para que embalsamassem {Jacó} Israel. Levaram quarenta dias completos, pois esse era o tempo para o embalsamamento . E os egípcios choraram sua morte setenta dias{mumificação}. E José {Yuya} partiu para sepultar Jacó. (Gn 50:1,3,50)


Para entender a história de Tiye é preciso conhecer a do faraó Amenhotep III.


Segundo Wolfram Grajetzki, o costume daquela época fazia com que o faraó tivesse muitos casamentos, pois era a forma de estabelecer alianças com os reinados vizinhos. Sabe-se que Amenhotep III casou-se com várias mulheres estrangeiras: Gilukhepa, filha de Shuttarna II de Mitanni, no décimo ano de seu reinado, Tadukhepa, filha de seu aliado Tushratta de Mitanni, por volta do ano 36 de seu reinado. Ainda há registros de casamentos dinásticos com filhas dos reis da Babilônia e outros reinos nas cercanias do Egito. Além destas, ele elevou duas de suas quatro filhas - Sitamun e Ísis - ao cargo de Grande Esposa Real durante a última década de seu reinado. Provas de que Sitamun já havia sido promovida a este cargo no ano 30 de seu reinado são conhecidas por inscrições feitas em jarras descobertas no palácio real em Malkata.

Grajetzki, Wolfram (2005). Antigas Rainhas Egípcias:
Um Dicionário Hieroglífico . Londres: Ed. Golden House.
https://en.m.wikipedia.org/wiki/Amenhotep_III


Osman explica o problema da herança e da sucessão. Segundo o costume no Egito daquela época, o casamento da herdeira real, filha da Grande Esposa Real, dava ao marido o direito de reivindicar o trono, tornando-o uma ameaça ao faraó vigente. Assim, para evitar este risco, era comum os faraós se casarem com suas próprias filhas, apenas para impedir que o consorte da filha o ameaçasse, assegurando assim o trono para si próprio. (pág125)


Segundo Osman, Tutmosis IV teve que se casar com duas de suas meia-irmãs, as princesas Iaret e Nefertari, que eram herdeiras legítimas e com quem teve inúmeras filhas. Tutmosis IV foi um dos muitos filhos do Faraó Amenófis II, e suas esperanças de obter o trono do Egito eram praticamente nulas por haver outros filhos reais à sua frente e também por ter nascido de uma esposa secundária do faraó. Porém, por obra do destino, seus irmãos e potenciais candidatos ao trono já haviam morrido quando ocorreu a morte do faraó, fazendo dele seu sucessor. Tutmosis IV morreu jovem, e foi sucedido por seu filho Amenotep III, um menino de doze anos na época. Por ironia do destino, a situação do seu pai acabou sendo a sua também. Por ter que assumir o trono aos 12 anos de idade, Amenhotep III casou-se com sua meia-irmã Sitamum para poder herdar o trono, mas aos 16 anos casou-se com Tiye, filha de Yuya e Tuya, sua preferida.


Yuya e sua esposa Tuyu também ocupavam os cargos de “Ornamentos” do faraó, equivalente ao de mordomo e dama de companhia, fazendo com que tivessem uma estreita convivência com a família real. Foi assim que Amenhotep III cresceu ao lado de Tiye e se apaixonou por ela. Sendo filha de um estrangeiro {Yuya/José do Egito} Tiye não poderia ser elevada ao posto de Grande Esposa Real, mas foi o que aconteceu. (pág 62)


Amenhotep III deu uma residência real para sua esposa Tiye, uma residência de verão na área próxima ao Gósen, identificados como Avaris e Pi-Ramsés no delta do Nilo, onde a família de seu pai Yuya/José havia se estabelecido. Amenhotep III construiu o “Lago dos prazeres para a Grande Esposa Real Tiye”, atestado por seis escaravelhos comemorativos encontrados. Estes dados reforçam a hipótese de que Yuya e sua filha Tiye eram descendentes de semitas israelitas, pois, na sua chegada ao Egito os israelitas estabeleceram-se na região do Gósen.


O fato de Tiye possuir sangue israelita e egípcio {Yuya/José – Tuya/Asenath} não dava aos seus filhos a prioridade na linha de sucessão. Se um deles ascendesse ao trono, isso seria considerado a formação de uma nova dinastia de faraós. Como está provado que Tiye é mãe de Akhenaton, o faraó que instituiu o monoteísmo, começa a se delinear a hipótese de que não foi Akhenaton quem rejeitou a divindade Amon, mas os sacerdotes tebanos, também chamados de amonitas, foram os primeiros a não aceitá-lo como o herdeiro legítimo ao trono. (pág 69)


Tiye era filha de Yuya, sabidamente um estrangeiro relacionado ao Templo de Om, que venerava a divindade solar ATON, cujo clero se contrapunha ao deus da guerra, AMON, o deus carneiro venerado em Tebas.


O fato da múmia de Yuya estar com as mãos postas sob o queixo, como se estivesse em oração, deu margem à hipótese de que ele pode ter estado na origem da ascensão de Aton. Atualmente muitos historiadores apontam Yuya como o precursor do culto a Aton, que também era o culto de sua esposa Tuya, podendo estar descrita na Bíblia como Asenath, filha de Potifar, um sacerdote do Templo solar de Om, cuja crença no Deus único foi promovida por seu neto, o faraó Akhenaton.


Colossal estátua de Amenhotep III, Tiye e três filhas.
Museu Egípcio no Cairo. http://www.crystalinks.com/amenhotep3.jpg


Tiye exerceu enorme influência nos reinados do marido Amenhotep III e do filho Akhenaton, como demonstra o tamanho com que foi retratada na imensa estátua dedicada ao casal real. Seu toucado ultrapassa o do faraó. Dependendo do período histórico, a arte estatuária representou o faraó bem mais alto que a rainha, a fim de indicar seu maior poder e prestígio. As escavações em Amarna {cidade planejada e construída por Akhenaton} trouxeram à luz uma série de inscrições e correspondências escritas em tabletes de argila, deixando evidente que Tiye governava com o marido. Ela presidia festivais, encontrava-se com dignitários estrangeiros e dirigia a políticas interna e externa do Egito.


Foram os nomes dos irmãos de Tiye – Anen e Aye - filhos de Yuya e Tuya o estopim que acendeu o alerta para semelhança com os nomes bíblicos dos filhos de José, Manasses e Efrain, já que estes derivam dos termos ‘Amon’ e ‘Ay’.


O nome Anen é outra forma de dizer Amon, ou Amem {Aliás, o “Amém” cristão é um legítimo herdeiro do Amon egípcio!}. Manasses e Efrain foram as formas que tais nomes egípcios tomaram ao serem transliterados para o hebraico, forte razão para supor que Yuya e José poderiam ter sido a mesma pessoa. Seguindo esta pista, Osman comparou todos os títulos e situações da história de ambos.


A história de José no Antigo Testamento foi comparada com a história de Yuya, revelada pelos achados arqueológicos. Esta hipótese tem consistência inegável, porém, ela é constrangedora, pelo fato de tal tema ser um tabu, devido as imensas implicações que ele traz para as religiões dominantes no mundo contemporâneo. Mas a verdade sempre vence.

Ahmed Osman
Moisés e Akhenaton: A história secreta do Egito no tempo do êxodo.
SP: Ed. Madras, 2005.
https://www.mayimachronim.com/yosef-and-yuya-
does-archaeological-evidence-prove-the-biblical-narrative-of-joseph/






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