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8 - PROPRIEDADE PRIVADA, HERANÇA E PRIMOGENITURA como fatores de subjugação da mulher

Atualizado: 6 de abr. de 2022


Jan Lievens. The Sacrifice of Isaac (1638). Wikimedia Commons

Depois da invenção da "cerca", que instituiu a propriedade privada, nada mais foi como antes. Depois dela o "nosso" virou "meu" e tinha que ser defendido até a morte. Esse "meu" virou "herança", que deveria ser passada para o "meu filho", o "primogênito", ou seja, o primeiro filho do sexo masculino que viesse a nascer. Filhas não precisavam de herança, afinal elas se casariam com alguém de outra família e mudaria de endereço e de proprietário. Quanto aos demais irmãos, estes seriam "servidores" do detentor da primogenitura. Ser o primogênito fazia toda a diferença. Em nome da primogenitura muitos épicos foram escritos, entre eles o Ramayana, história semelhante aos filhos de Abraão: Ismael e Isaque.


Diz o Gênesis que Ismael foi o primeiro filho de Abrão, porém não de Sara.


Ora, Sarai, mulher de Abrão, não tinha filhos, mas como tinha uma escrava egípcia, chamada Agar, disse a seu marido: bem vês que o SENHOR me fez estéril, e que eu não posso ter filhos. Toma pois a minha escrava, a ver se ao menos por ela posso ter filhos. (Gn 16:1, 2)

Assim tomou Sarai, mulher de Abrão, a Agar egípcia, sua serva, e deu-a por mulher a Abrão seu marido. E ele possuiu a Agar, e ela concebeu; E Agar deu à luz um filho a Abrão; e Abrão chamou o nome do seu filho que Agar tivera, Ismael. E era Abrão da idade de oitenta e seis anos, quando Agar deu à luz Ismael. (Gn 16: 3-16)


No entanto, Deus havia falado a Abrão que Sarai lhe daria um filho, que se chamaria Isaque, e que este seria o filho da Aliança, e não Ismael, seu primogênito.


E concebeu Sara, com a idade de noventa anos. e deu a Abraão um filho na sua velhice, ao tempo determinado, que Deus lhe tinha falado. E Abraão pôs no filho que Sara lhe dera, o nome de Isaque.

Gn 17: 17-27 E era Abraão da idade de cem anos, quando lhe nasceu Isaque seu filho. Gn 21:5


O conflito estava estabelecido. Ismael era o primogênito, mas filho de uma serva. Isaque era filho da esposa principal, porém nascido depois. Quem herdaria os bens de Abraão? Lutando pela primogenitura de seu filho, Sara exigiu que Abraão expulsasse Agar e seu filho. E disse a Abraão:


Ponha fora esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não herdará com Isaque, meu filho. (Gn 21:10) E Abraão cumpriu o desejo de Sara.


Então se levantou Abraão pela manhã de madrugada, e tomou pão e um odre de água e os deu a Agar, pondo-os sobre o seu ombro; também lhe deu o menino e despediu-a; e ela partiu, andando errante no deserto de Berseba. (Gn 21:14)


Ambos quase morrem de sede, mas contaram com uma ajuda.


E abriu-lhe Deus os olhos, e viu um poço de água; e foi encher o odre de água, e deu de beber ao menino. (Gn 21:19)


https://www.freebibleimages.org/

Deus colocou Abraão em prova. E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi. (Gn 22:2) Então levantou Abraão os seus olhos e olhou; e eis um carneiro detrás dele, travado pelos seus chifres, num mato; e foi Abraão, e tomou o carneiro, e ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu filho. (Gn 22:13) Na narrativa de Abraão, o carneiro passou a ser o símbolo do sacrifício. A partir daí o bezerro deixou de ser o animal sacrificial e passou a ser considerado um "ídolo".


Quanto aos seus filhos, Ismael e Isaque, estes deram origem à dois agupamentos humanos que, apesar de irmãos, lutam como inimigos ferrenhos.



Questões religiosas à parte, os conflitos entre árabes e judeus são estimulados pela ganância das potências mundiais que tomaram a região como butim de guerra. Aqui vale um parêntesis:


O primeiro automóvel foi criado em 1885 pelo alemão Karl Benz e melhorado por Gottlieb Daimbler, que iniciaram a produção em massa em 1888, porém, a primeira fabricação industrial foi de uma empresa francesa, a Panhard et Levassor. Já os ingleses entraram na concorrência um pouco mais tarde. Na América do Norte a Ford Motor Company nasceu em 1903. Porém, durante a Guerra de 1914-1918, todos esses países estavam de olho no Oriente Médio por causa do petróleo, essencial para a indústria automobilística.


A França e o Reino Unido deram início a uma conferência em uma pequena cidade italiana, com o objetivo de formalizar a divisão do Oriente Médio. Essa divisão havia sido acertada quatro anos antes em uma reunião secreta na qual negociaram o Acordo Sykes-Picot. Os franceses ficariam com o Líbano e a Síria, enquanto os britânicos assumiriam o Iraque e a Palestina. Tal conferência foi realizada de 19 a 26 de abril de 1920, há 101 anos. De lá para cá os conflitos e as guerras motivadas pelo petróleo só aumentaram no mundo todo.


https://www.infoescola.com/curiosidades/historia-do-automovel/
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-56885838


A propriedade privada, a herança e a primogenitura são as fontes primárias para os conflitos milenares que arruínam países e famílias, sendo também a fonte para o surgimento dos primeiros códigos de leis e do DIREITO.


A propriedade privada, a herança e a primogenitura são igualmente fatores determinantes para a subjugação da mulher pelo homem, considerada sua propriedade, da qual ele dispõem como quiser, de acordo com seus interesses.


A relação que Isaque estabeleceu com Rebeca, sua esposa, é espantosa, para dizer o mínimo. Assim como seu pai, Abraão, Isaque praticamente ofereceu Rebeca aos governantes locais, a fim de preservar sua vida.


As Escrituras dizem que ambos tinham medo de serem mortos. Ambos pedem {ou exigem} que suas esposas digam que eram apenas suas “irmãs”, o que as tornavam desimpedidas para serem tomadas como esposas secundárias do governante local. Uma vez que a verdade vinha a tona, ambos confessaram que elas eram, de fato, suas esposas, e mesmo assim ambos foram agraciados com muitos “presentes” pelos mandatários, o que torna a narrativa muito estranha.


No Antigo Testamento é dito: E perguntando-lhe os homens daquele lugar acerca de sua mulher, disse: É minha irmã; porque temia dizer: É minha mulher; para que porventura (dizia ele) não me matem os homens daquele lugar por amor de Rebeca; porque era formosa à vista. E aconteceu que, como ele esteve ali muito tempo, Abimeleque, rei dos filisteus, olhou por uma janela, e viu, e eis que Isaque estava brincando com Rebeca sua mulher. Então chamou Abimeleque a Isaque, e disse: Eis que na verdade é tua mulher; como pois disseste: É minha irmã? E disse-lhe Isaque: Porque eu dizia: Para que eu porventura não morra por causa dela. E disse Abimeleque: Que é isto que nos fizeste? Facilmente se teria deitado alguém deste povo com a tua mulher, e tu terias trazido sobre nós um delito. (Gn 26:7-10)


Também é surpreendente a sequência de mulheres estéreis: Sara, esposa de Abraão e a nora Rebeca, esposa de Isaque. Ambas com histórias de casamentos consumados ou não com governantes locais. Muita coincidência, não? A esterilidade, assim como a gravidez na velhice, podem ter sido atribuídas como forma de justificar que, mesmo tendo convivido com o faraó, no caso de Sara, teria sido impossível que o filho fosse dele uma vez que ela era estéril. O fato da narrativa bíblica ter colocado Sara para parir com 90 anos de idade pode estar na mesma linha, justificar que seu filho jamais poderia ter sido fruto do seu casamento com o faraó, pois ela já estava muito velha.


Assim como Sara, Rebeca era estéril. (Gn 25:21) No entanto, graças as súplicas de Isaque, ela concebeu dois filhos, gêmeos. A história de Esaú e Jacó também trata da questão da primogenitura. Jacó obteve a primogenitura através de um estratagema que envolveu dissimulação e trapaça contra o próprio pai e irmão. Certamente não é um exemplo edificante.


Rebeca concebeu gêmeos, dois meninos que brigavam no seu ventre. O primeiro a nascer foi Esaú. Ele saiu ruivo e coberto de pelos, por isso foi chamado de Esaú. Jacó nasceu depois, segurando seu irmão pelo calcanhar, por isso foi chamado Jacó. Os dois irmãos cresceram e Esaú transformou-se em um homem muito habilidoso com a caça, por isso era mais amado por Isaque, mas Rebeca amava mais a Jacó.


Chapter 25 to 27 - Conflict of Jacob and Esau Wikimedia Commons


Certo dia, Jacó preparou um cozido de carne e lentilhas. Esaú chegou cansado do campo e pediu a Jacó que lhe desse um prato de comida. Jacó respondeu:

– Está bem, mas primeiro me venda o seu direito de primogenitura.

– Eu estou quase morrendo! Para que vai me servir a primogenitura nessa hora? – questionou Esaú comendo seu prato de lentilhas.


Isaque, que já estava velho e os seus olhos mal podiam ver, chamou Esaú e lhe disse:

– Esaú, meu filho, prepara uma caça para mim, um ensopado de carne como eu gosto. Depois vem até aqui para que eu te dê a benção de primogenitura antes que morra.

Rebeca escutou Isaque falando com Esaú, então procurou Jacó e pediu que ele matasse dois cabritos do rebanho e os trouxesse para ela preparar o ensopado para Isaque.

– Assim teu pai vai te abençoar!

Jacó respondeu:

– Mas Esaú é homem peludo e eu sou liso, meu pai vai notar a diferença e irá me amaldiçoar.

– Meu filho, confia em mim. Apenas faça o que eu te digo.

Rebeca preparou o ensopado e vestiu Jacó com roupas usadas de Esaú, que foi ao encontro do pai.


Chapter 25 to 27 - Conflict of Jacob and Esau Wikimedia Commons

– Quem és tu? – perguntou Isaque

– Sou Esaú, teu primogênito.

– Mas como você achou a caça tão rápido?

– O Senhor me abençoou para que eu achasse, disse Jacó.

– Chega mais perto filho, para que eu te apalpe e veja se és mesmo Esaú.

Desconfiado, Isaque continuou:

– A voz é de Jacó, mas o cheiro é de Esaú.

Caindo no engodo, Isaque o abençoou. (Gn 27:27-29)

Depois disso Jacó se retirou e, em seguida, seu irmão Esaú se aproximou com a caça.

Isaque perguntou:

– Quem és tu?

– Esaú, o teu filho primogênito.

Então Isaque estremeceu por dentro e exclamou:

– Então quem era aquele que estava aqui?! Ele me deu a caça e o abençoei !

E Esaú gritou com grande força:

– Abençoa também a mim pai!

– Teu irmão nos enganou e tomou a benção da primogenitura que era tua.

Esaú chorou e clamou a seu pai:

– Não sobrou para mim nenhuma benção?

E Isaque respondeu:

Eis que a tua habitação será nas gorduras da terra e no orvalho dos altos céus. E pela tua espada viverás, e ao teu irmão servirás (Gn 27:40).

Esaú odiou Jacó pelo que este lhe fizera e prometeu para si mesmo: “quando meu pai morrer, matarei meu irmão”.

A intenção de Esaú chegou aos ouvidos de Rebeca que advertiu a Jacó:

– Jacó, foge para as terras do meu irmão Labão em Harã, até acalmar a ira de Esaú.


Chapter 25 to 27 - Conflict of Jacob and Esau Wikimedia Commons


A história de Jacó não é exemplo a ser seguido. Ele enganou seu pai a fim de usurpar a benção de primogenitura que pertencia a seu irmão Esaú.


Os descendentes de Esaú foram os edomitas. (Gn 36:1) Os descendentes de Jacó são os israelitas, pois Jacó foi chamado de Israel. (Gn 35:10).


Jacó, com suas esposas Leia e Raquel, teve oito filhos: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zebulom, José e Benjamim, além de 4 filhos que teve com as concubinas Bila e Zilpa: Dã, Naftali, Gade e Aser. Os 12 filhos de Jacó são os líderes das famosas Doze Tribos de Israel.


O costume patriarcal de usar as servas da casa para trazer herdeiros do patriarca ao mundo foi relatado no Antigo Testamento. Assim aconteceu com os quatro filhos que Jacó teve com as servas Bila e Zilpa, tal qual Ismael, filho primogênito que seu avô Abraão teve com Agar, serva da estéril Sara.


Esse costume tornou-se mote para um romance de sucesso, que acabou tornando-se uma série televisiva em canal pago. Trata-se do romance da canadense Margaret Atwood, publicado em 1985 e intitulado “The Handmaid’s Tale”, traduzido como “O Conto da Aia”.



O livro, que resultou numa série, abordam um futuro distópico e aterrorizante em um país teocrático e fundamentalista, que no passado foi os Estados Unidos da América, agora rebatizado de República de Gileade. O nome foi retirado de um lugar real.



Nele, as mulheres que não pertencem à elite do novo regime teocrático são tratadas como cidadãs de segunda classe, propriedade do estado e escravas sexuais. Na trama, o novo governo é instaurado por um grupo cristão militar auto intitulado “Filhos de Jacó” que ataca ao mesmo tempo a Casa Branca e o Congresso dos Estados Unidos e substitui a constituição americana pela Bíblia. O objetivo do novo regime é estabelecer uma nova ordem mundial baseada em preceitos retirados do Velho Testamento, com a criação de castas sociais. Por alguma razão a elite governamental tem dificuldades para gerar filhos, razão pela qual as mulheres que não pertencem às suas fileiras são raptadas e escravizadas, tendo como função gerar filhos para seus algozes, os “Filhos de Jacó”.


Por mais chocante que possa parecer, a autora garante que tudo que descreve no livro tem respaldo histórico e já aconteceu no passado: a Revolução Iraniana de 1978-1979, as crianças roubadas pelos militares argentinos e pelos nazistas também, o recrudescimento dos ataques aos direitos conquistados pelas mulheres em todo o mundo, e por aí vai. Por causa disso, a autora considera seu trabalho uma peça de ficção baseada em fatos reais. Um dos fatos mais chocantes da trama é o estupro, este realizado sob os olhos da esposa infértil que quer ter um filho às custas de sua escrava, a Aia. As cenas se desenrolam tal qual descrita na Bíblia.


Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, se não morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse:

- Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre?

E ela disse:

- Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela.

Assim lhe deu a Bila, sua serva, por mulher; e Jacó a possuiu.

E concebeu Bila, e deu a Jacó um filho, Dã.

E Bila, serva de Raquel, concebeu outra vez, e deu a Jacó o segundo filho, Naftali.

Gênesis 30:1-8 (Gn 34: 13).



Quanto mais se lê sobre a vida dos primeiros patriarcas, mais convincente fica a hipótese de que tais narrativas bíblicas foram montadas, moldadas, reformuladas, reestruturadas, reorganizadas e, finalmente, transformadas para serem convenientes.


Porém, conveniente para quem?


Esta pergunta é fundamental e a resposta para o surgimento do monoteísmo e da supremacia masculina, que começou com a destruição dos símbolos da Grande Mãe e continuou com a demonização da mulher.



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